31/08/2002
Número - 274


 


Airo Zamoner
  

O MENINO E OS IPÊS

Olho a cidade e ela me fere as entranhas. Há um desejo incontido de vê-la com os olhos do menino que fui. Mas não há mais menino algum. Isso eu vejo no espelho que me desaponta. Há um desejo imenso de ver uma vez mais o menino com os olhos da cidade que não vou rever jamais.

Que coisa é essa a massacrar os confins do pensamento inquieto? Houve tempo que ao olhar para trás eu via um horizonte gigantesco, encostado em mim. Ao olhar para frente havia um outro, longínquo, inatingível, tão pequeno! Mas agora, o de trás vejo distante, perdido na ingratidão do tempo. E o da frente, vejo-o hipertrofiado, encostado em mim e além dele, o nada absoluto e o frio na barriga.

Parece que percorri todo o espaço que havia entre eles um tanto atabalhoado, apressado, responsável demais com o trajeto programado que não programei.

Talvez não devesse ter corrido tanto. Talvez teria sido melhor saborear cada passo com cautela, com vagar, sem planos. Esqueci de fechar os olhos de quando em vez para ouvir melhor o barulho do mundo. Respirar cada cheiro bom, cada cheiro estranho, cada cheiro ruim. Sei que precisava estudar muito, trabalhar até prematuramente. Neste afã diabólico fui correndo para o horizonte da frente. Ele parecia infinito. A vida era infinita. Eu era eterno! Poderia fazer tudo. Poderia errar quantas vezes quisesse. Sempre daria tempo de consertar tudo. Refazer tudo. Depois? Ah! Depois então, eu teria tempo para curtir o mundo, sentir a primavera, saborear a vida.

E agora?

É engraçado como agora que o finito se agiganta em minha frente, eu distingo melhor cada estação do ano. Estou vendo os ipês floridos. Que coisa! Nunca me tocou a alma como agora. Deslizo rápido pela avenida e os ipês sem folhas, decorados com o amarelo vivo de flores, quiçá furtado do Sol distraído, me fazem tanto bem.

Sei que daqui a pouco as flores se dispersarão pelos caminhos e tudo estará acabado. Os carros já passam indiferentes sujando e amassando as pétalas. Levará mais um ano inteiro para que eu possa vê-las novamente e o horizonte está cada vez mais próximo.

Por que não admirei os ipês quando menino? Não consigo responder essa pergunta. Talvez eu tenha olhado demais para baixo, preocupado com os tropeções, e de menos para cima, para não ser taxado de sonhador. Por que sonhador? Não esqueço quando Dona Dulce deu o meu diagnóstico escolar aos meus pais aflitos: “Ele vai bem! Mas poderia ir melhor se não ficasse sonhando”. O fato é que não lembro dos ipês da praça Tiradentes, os mais antigos. Passo pela rua Fagundes Varela! Meu Deus! É impossível não ficar extasiado. O que aconteceu que não convivi com eles? Será que foi assim também com as pessoas? Certamente foi assim com esta cidade que se transformou e me solapou coisas que não conseguirei avaliar jamais.

Lembro-me do perfume que envolvia tudo nos passeios vagabundos pelas noites de inverno, de verão, de outono, de primavera. Havia um cheiro de romance nas noites de Curitiba. Hoje, há cheiro de sangue e eu não vagabundeio mais.

Olho a cidade e ela me fere as entranhas. Há um desejo incontido de vê-la com os olhos do menino que fui. Mas não há mais menino algum. Isso eu vejo no espelho que me desaponta. Há um desejo imenso de ver uma vez mais o menino com os olhos da cidade que não vou rever jamais.


(31 de agosto/2002)
CooJornal no 274


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br