14/09/2002
Número - 276


 


Airo Zamoner
  

QUEM FEZ A PONTE DO PATRIARCA?

Lá na ponte da entrada do bairro, eles foram chegando. Era difícil atravessar. Ponte precária, apodrecida, perigosa. Os carros ficaram do outro lado. Os assessores alegres, coloridos, musicais começaram o desfile. Os alto-falantes tocaram músicas bem do gosto dos moradores. A criançada acercou-se eufórica, acompanhando o cortejo.

Esse era um acontecimento costumeiro a cada véspera de eleições. A rua principal ficava tomada por bandeiras e faixas. As janelas se abriam. As portas se escancaravam. As mulheres acenavam esperanças.

O patriarca desfilava triunfante, acenando sem parar. Entrava em cada casa e perguntava como iam. Beijava as crianças meladas e sujas. Sentava-se no banco carcomido e enroscando seu linho importado ouvia com paciência as desculpas do anfitrião. Fingindo não se importar, prometia que tudo melhoraria depois das eleições. Eleições muito especiais desta vez, pois era chegada a hora do bairro que soube esperar com paciência. A ponte! Desta vez, sim! A ponte seria finalmente construída e haveria transporte, progresso e tudo mais.

De casa em casa, com seus assessores ele ia distribuindo quinquilharias inúteis junto com sua foto sorridente. Esse era o costume há tantos anos. Todos se incorporavam ao desfile e iam para a pracinha, ouvir mais uma vez o discurso que alimentava a esperança. O orador afirmou e reafirmou que desta vez sim, tudo se resolveria. Teriam finalmente a tão sonhada ponte. Teriam mais saúde, mais escolas, as ruas seriam asfaltadas, finalmente esgoto e coleta de lixo seriam implantados. Todos acreditavam e aplaudiam frenéticos. O patriarca tinha ali, seu maior reduto eleitoral. Um reduto cativo.

Ao longo dos quatro anos seguintes tomava o cuidado para que ninguém melhorasse nada. Construir a ponte nova, nem pensar. Isto estragaria tudo. Era preciso manter o sonho desses miseráveis, sempre como um sonho. A escola precisava ficar da pior forma possível. E ele explicava aos seus assessores porquê:

– Se essa gente aprender muito, terei problemas. Deixem assim. Se lutei pelo voto do analfabeto, não era para acabar com eles. – E soltava uma gargalhada sarcástica.

Agora ele aponta mais uma vez lá na entrada da rua principal. Contudo, estranha muito o que vê. As crianças, que sempre eram as primeiras a esperar a caravana na entrada do bairro não estão por ali. Não há uma única sequer. E a ponte? Ele se pergunta o que acontecera com a velha ponte. Está ali uma ponte nova. De concreto. Larga e bem construída. Os assessores entram com as mesmas músicas, paramentados como sempre, sorrindo e chamando os moradores, mas as casas estão fechadas. Eles vão passando e as janelas se abrem. As mulheres com lenços pretos na cabeça aparecem e não respondem aos acenos. Todas com uma expressão de serenidade, de descoberta, de desprezo, de cansaço, mas de vitória. As portas estão fechadas e o patriarca não consegue falar com ninguém. Os assessores estão pasmados e medrosos. Assim mesmo vão para a praça sem povo, não sabendo o que fazer. Não há discurso. Não há festa. O bairro está vazio. O patriarca inconformado exige que os assessores descubram quem havia construído a maldita ponte. Dali mesmo ligam para todas as autoridades. Ninguém sabe de nada. Ninguém liberara verba alguma, mas a ponte está ali, agredindo os desejos do patriarca. Não importa, pensa. Vou dizer que fui eu quem a conseguiu. Grita pelas ruas que desta vez ele tem grandes notícias. Tudo vai mudar, agora que havia conseguido a ponte. As mulheres se recolhem das janelas, fechando-as bruscamente. A caravana do patriarca sai em silêncio, sem música, bandeiras arrastando-se pelo chão.

Na ponte, um menino apóia-se no parapeito e assiste a saída melancólica. É o único morador fora das casas. O patriarca arrisca uma conversa:

– Pelo menos você veio me ver. O que aconteceu com esses ingratos?

O menino nada responde. Apenas o encara com um olhar estranhamente autoritário. O patriarca insiste:

– Quem construiu essa ponte aí, garoto?

– Fomos nós! Eu ajudei. Agora todos estão trabalhando na reforma da escola. Tá ficando linda que só vendo...


(14 de setembro/2002)
CooJornal no 276


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br