05/10/2002
Número - 280

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Airo Zamoner
CORAÇÃO EM PÂNICO |
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Eu a vi do outro lado da rua. Encolhida. Assustada. Ali se instalara,
bonita e relaxada desde os tempos da velha Curitiba, pacata e
sorridente. Hoje está tensa, insegura, embrutecida e treme diante da
cidade nervosa que sorri tão pouco.
Parei e observei seus medos, suas angústias que afloravam fortes.
Parecia pedir socorro sem gritos, sem esperança. Esbocei um gesto, um
aceno em sua direção. Um inútil gesto que não salva, que não conforta
diante do inescapável.
Minha visão intermitente, entrecortada por veículos endoidecidos,
pesados, grudados em fileiras de vagões abarrotados, qual vermelha
centopéia de rodas, mal permitia divisar seus contornos, seu corpo tão
bem construído, torneado com esmero e arte. Ainda estavam nítidos em
sua textura antiga os detalhes trabalhados com finura, com a paciência
que o tempo consumiu abestalhado, trocada pela americanóide velocidade
construtiva.
Olheiras profundas e escuras escorriam saudades, explodindo tristezas.
Olhar fosco, lento, magoado, partindo de suas janelas em decrepitude,
perfurava o espaço entre nós. Atravessava a rua tumultuada e penetrava
na história da minha cidade derrotada pela avalanche insensível da
transmutação cruel, inevitável.
Os minutos se passavam e eu não conseguia me afastar dali, observando
sua pose altiva por trás dos destroços a que se transformava diante
dos meus olhos.
Dava pra sentir seu sofrimento quando ela desviava o olhar melancólico
para o jardim apequenado, vendo as flores teimosas da primavera
nascente insistirem em perfurar heroicamente os entulhos e exibir-se
em despedida final para sua rainha moribunda.
Confesso que tentei atravessar aquela rua infernal que nos apartava.
Queria transpor a correnteza de motores e rodas. Abortava meu gesto
diante da impotência absoluta de planejar qualquer consolo.
Se lá chegasse, que palavras poderia dizer que acordasse algum sorriso
remanescente? Poderia, isto sim, dizer coisas idiotas. Dizer que foi a
mais bela. Dizer que foi a rainha do bairro. Dizer outras tantas
bobagens que ao invés de a confortar, aprofundaria sua mágoa, sua
aflição diante da morte iminente.
E afinal as palavras, por mais rebuscadas que fossem, não traduziriam
o que se passava em minha alma, nem chegaria com o ardor completo da
ligação profunda que nos unia.
O melhor era silenciar. O melhor era ficar ali bem a sua frente e
esperar que seus olhos se encontrassem com os meus e então deixar que
ela penetrasse minhas entranhas e descobrisse meu desassossego, minha
aflição infinita.
O que eu queria mesmo naquela hora era parar com violência todas essas
pessoas ensandecidas pela vida desembestada que grassa por minha
cidade sorriso. Vida que perdeu a meiguice das flores em plena
primavera.
Queria mesmo era interromper o rodamoinho desta rua malcheirosa de
petróleo e fazer com que todos se voltassem para ela. Reverentes,
todos poderiam doar um momento de homenagem, antes que a velha casa
encolhida entre dois indiferentes e marmóreos prédios desaparecesse
com seu jardim teimoso, demolida definitivamente de nossos corações em
pânico.
(05 de outubro/2002)
CooJornal no 280
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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