12/10/2002
Número - 281



 


Airo Zamoner
  

AMOR PLATÔNICO

Estou absorto diante da tela do computador repleta de informações coloridas, diversificadas, ofertando links abundantes para me levar alhures, prometendo prazeres infinitos.

As animações perfeitas saltam vida própria sob meus olhos indiferentes, jogando sedução tentadora para ganhar minha atenção preguiçosa. Elas passeiam demoníacas, umas sobre as outras enquanto meus dedos repousam sobre o teclado, perfilados como soldados disciplinados na terceira linha, esperando a inspiração tranqüilizadora.

Os sons intempestivos ecoam nos meus ouvidos poluídos, avisando das cartas eletrônicas, chegando invisíveis a cada minuto. Amigos, produtos e mentiras se misturando num frenesi maluco.

Meus pensamentos entram em rebeldia contra a balbúrdia interneteira que intrometida, mudou meu comportamento. Jogou-me com a velocidade da luz, num relacionamento seco com esta senhora duvidosa e fria.

Na rebeldia, afasto os olhos da tela e os ouvidos do fone. Atiro um olhar de paixão platônica para a mesinha ao lado, neste meu reduto de clausura para a criação cotidiana. Ela continua lá, como há anos, nem sei quantos, olhando-me apaixonada e silenciosa. Sinto-a repleta de esperanças por uma migalha da minha atenção de outrora.

Recosto-me no espaldar alto da cadeira nova. Jogo as mãos entrelaçadas para a nuca e continuo a admirá-la. Ela fica imóvel, congelada, arrepiada pela atenção repentina.

Fico a lembrar o tempo em que nos entendíamos tão bem. Sentava-me a sua frente e ela saltitava de prazer. Sabia que em instantes eu a cobriria de carícias com as duas mãos, com todos os meus dedos, sussurrando palavras no matracar das letras mecânicas e obedientes.

O rolar suave do papel, o tilintar divino do minúsculo sino, avisando parcimonioso o final de linha, eram os sons da musa a despejar as criações saborosas de outrora. Os pensamentos se materializavam paulatinos na cadência do papel a se desenrolar orgulhoso, exibindo-se cheio de acertos, erros e rebatidos.

Ao final, a puxada brusca da folha produzia um ruído rápido pelo girar abrupto do rolo teimoso. Gesto de satisfação paradisíaca. Verdadeiro orgasmo da velha Olivetti a me ofertar mais uma crônica, pronta para ser corrigida e rebatida. Depois era só caminhar até o jornal num passeio delirante de missão cumprida, olhar o mundo lá fora, sentindo a inspiração crescer exuberante para novas investidas.

Agora nada disso me espera. Vou clicar num botão fantasma e meu original corrigido e perfeito, numa forma sem forma, vai passear por fios e antenas num átimo de tempo. Serei compelido a me contentar com a mensagem, nesta tela gelada de luzes robóticas, avisando que o meu texto já está no jornal.

A saudade me abateu com tanta crueldade que ousei mudar de cadeira. Sentei-me novamente na velha cadeira de espaldar baixo. Percebi o tremor de suas teclas. Ouvi! Sim, ouvi pasmado o tilintar avulso, um plim de final de linha. Um chamado desesperado, ansioso para que eu a tocasse de vez com meus dedos. Matasse sua saudade desesperada. Aliviasse seu ciúme impotente.

Fui até a impressora. Arranquei uma folha branca. Ajeitei-a no rolo ressequido, e no giro suave, o estalar intermitente. Nada de bits e bytes enlouquecidos, fingindo música de matéria plástica, mas o som verdadeiro, concreto, a cadenciar o pensamento nômade.

Organizei meus dedos sobre suas teclas trêmulas, gastas e empoeiradas. Ela, enternecida, profundamente grata, escreveu sem parar um segundo, a história de seu amor platônico. Fiquei fossilizado por um instante. Quis sair em busca de testemunhas. Não deu tempo! Antevendo seu destino e minha ingratidão suprema ela tilintou um adeus rápido, antes que eu atendesse o comprador de sucatas que batia insistente em minha porta.


(12 de outubro/2002)
CooJornal no 281


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br