19/10/2002
Número - 282

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Airo Zamoner
O MOTIM |
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Pela primeira vez foram colocadas lado a lado. Olharam-se
desconfiadas. Estavam acostumadas a outras companhias, mais íntimas,
mais promíscuas. Divertiam-se juntas. Conheciam-se profundamente.
Quando era tempo de brincar, brincavam até cansar. Quando precisavam
lutar, lutavam e venciam. Quando o clima era de paixão, apaixonavam-se
ao extremo. Aproveitavam-se do romance e do prazer como ninguém.
Conheciam-se a ponto de não se importarem com a falta de liberdade.
Gostavam de ser manipuladas com maestria, com harmonia, com graça.
Afinal, liberdade nunca se sobressaía nas conversas.
O fato é que agora estavam vivendo uma surpresa. Rompendo a rotina,
desorganizaram-se e lado a lado, quedavam-se estranhas, indiferentes,
tímidas.
Pela primeira vez em suas vidas procuraram, solitária e inutilmente,
uma explicação. Novas desconhecidas foram se aglutinando, se
enfileirando, se amontoando desordenadamente. Em todas surgia o mesmo
sentimento de estranheza, seguido de perplexidade. Sem encontrar
explicações plausíveis, tornaram-se um aglomerado absurdo, sem lógica,
sem alegria, sem harmonia alguma.
A idéia de liberdade começou a percorrer os subterrâneos dos seus
pensamentos. Ninguém, contudo, tinha coragem para dar início à
conversa.
Liberdade! Sim, finalmente ela surgiu corajosa. Deu o primeiro passo.
A agitação substituiu a monotonia. Conheceram-se como nunca haviam
feito. Descobriram-se, descobrindo seus mais profundos desejos.
Desprezaram todos os mestres. Sentiram-se poderosas.
Uma sutil alegria começava a penetrar as entranhas e lá dentro se
iniciava uma revolução muda, mas poderosa. A cumplicidade se
alastrava. Não conseguiam, porém, mudar de lugar. Continuavam lado a
lado, mas já não eram estranhas.
Tentaram algum movimento. Desajeitadas, não sabiam como provocá-lo.
Sabiam de sua importância. Movendo-se, dariam o primeiro passo para a
liberdade. Desgraçadamente não se moviam, por mais esforço que
despendessem. Uma corrente de frustração percorreu todas elas.
A surpresa foi estonteante. A vertigem coletiva ameaçava o sonho.
Liberdade sem movimento não seria liberdade.
Silenciaram por um longo tempo. A agitação ia desaparecendo e caíram
pouco a pouco no conformismo aniquilador. Mas não queriam morrer. Não
podiam morrer.
Algo precisava acontecer rapidamente. Aconteceu. Ele chegou,
apresentando-se como o movimento indispensável. Movia-se com
desembaraço entre elas, sacudindo-as com energia, com entusiasmo, com
vibração. Imóveis, elas admiravam o movimento, harmonioso, sedutor,
apaixonante, solto e ágil. Apaixonaram-se.
Um momento de profunda crise infiltrou-se em cada uma. Um fibrilar,
inicialmente silencioso e logo depois ensurdecedor, foi seguido por
estrondos de ruptura. Elas ganharam finalmente o movimento e com ele a
liberdade.
Num salto coletivo para o alto, voaram por alguns instantes num treino
experimental extasiante. O movimento liderava a desordem, criando
circunvoluções complexas. E a ordem parecia se construir
paulatinamente. A coreografia se esboçava e elas perderam a timidez. A
indiferença deu lugar à admiração mútua.
Divertiram-se como antes. Misturaram-se. Descobriram suas entranhas.
Entenderam- e, amaram-se e num pico de histeria repentina, caíram em
mergulho convulso, derramando-se sobre o papel branco, com a mais
perfeita harmonia. Desmancharam-se de prazer.
A partir daquele dia, as palavras conquistaram o movimento, a
liberdade e abandonaram a fileira absurda do dicionário para se tornar
literatura.
(19 de outubro/2002)
CooJornal no 282
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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