25/10/2002
Número - 283


 


Airo Zamoner
  

QUEM PAGA A CONTA?

Mesas, cadeiras e vidas se espalhavam pela calçada barulhenta. O Sol se esbaldava em queimaduras, despejando-se pelos contornos da cidade. O garçom se esgueirava pelos labirintos esbanjando habilidades.

Sentados, gozando o relaxo delicioso do corpo cansado, bebíamos o mundo pelos copos espumantes.

Repassávamos a confusão de nossas histórias na busca de alguma ordem enrustida nos confins do tempo.

Ríamos a risada dos picadeiros e a bebida gelada cascateava pela garganta, ricochetando festiva nas dobras intestinas, criando cócegas insatisfeitas de excitação.

O prazer se aconchegava à tristeza encurralada e numa luta terminal, perdiam-se nas cavernas incertas de nossas míseras lembranças.

Inexplicavelmente a luz incandescente que invadia o caos, acinzentou-se. Meu interlocutor assustado, arqueólogo pungente de nosso passado confuso, desmaiou o copo, fazendo-o espatifar-se em parábolas brilhantes, ferinas, perigosas.

Seus olhos se perderam em dimensões absurdas.

Sacudi-o pelos ombros, derrubando a mesa, craquelando vidros. Ele se apagou em fade contínuo. Sumiu de meus olhos estarrecidos. Percebi que fazia o mesmo comigo, enquanto o garçom, estupefato, agitava freneticamente a conta em nossos narizes, perguntando aos indiferentes fregueses:

– Quem paga esta conta?

Extraviados em nossas entranhas, revistamos as prateleiras ensangüentadas, empoeiradas e apodrecidas. Examinamos objetos disformes, ávidos a desemprenhar mensagens represadas.

O espelho esmaecido das paredes visguentas refletiu nossas imagens de meninos assustados, navegando pelo tempo, numa revista minuciosa de momentos introvertidos.

O amontoado desordeiro dos pecados se aconchegava num abraço promíscuo com o monturo de alegrias isoladas.

Os dois, mergulhamos sobre aqueles estoques abjetos e imponderáveis de coisa alguma, com a coragem sugada de ingenuidades perdidas.

Tentamos, e tentamos com denodo e alma, remover cada unidade e reorganizar o tumulto com esmero cartesiano. Esvoaçamos pelo espaço úmido das entranhas sujas, com desembaraço de bruxos. Frustramo-nos. Obstinadamente, um a um, os teimosos objetos, num ato de prestidigitação alucinante, voltaram ordenadamente a se desordenar.

A cabeça se esboroou em dores renovadas. A ânsia incontida de fugir e voltar à mesa do bar devolveu lucidez e lógica.

Associamo-nos apressadamente para a fuga suicida num esforço final. Saímos de nossos próprios avessos, de nossas consciências indomáveis, sem perceber a artimanha do destino.

Inexplicavelmente o cinza que cobria a desordem, coloriu-se.

Aqui fora o sol continuava a derreter ouro pelos raios fogosos. A luz ainda se afadigava pedante e indiferente no éter próximo.

Os copos gelados estavam intactos, escorrendo espumas aliciantes. As parábolas de cacos se desfizeram em retorno, apagando-se em buracos negros da lembrança imediata. Aliviamo-nos do destino.

O garçom sacudiu o papel e equilibrou a bandeja indisciplinada. Insistiu:

– Quem paga essa conta?



(25 de outubro/2002)
CooJornal no 283


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br