09/11/2002
Número - 285



 


Airo Zamoner
  

ONDE ESTÁ DONA VENTURA?

Pouca bagagem. Sacos. Utensílios soltos. Sacolas. Bebês choraminguentos pendurados aos quadris. A vila imersa em preto. Respiração ofegante, aspirando quietude, traição.

Bateu. A porta se abriu. O ar pintou-se de luzes. A serenidade fugiu, expulsa pela música repentina. A viúva assustada agarrou a prole. Multidão se achegou. Aplausos pipocaram alegrias, misturando-se aos lamentos de anciões cansados, crianças sonolentas, mulheres intrépidas, homens embrutecidos. A viandante retesada trocou medo por estupefação. Os filhos relaxaram o aperto.

– Estávamos ansiosos, Dona Ventura. Seja bem-vinda!

– Dona Ventura? Não!

Seu Tristão espalmou as mãos. Silêncio retomou a noite. Repetiu altiva.

– Não sou Ventura!

Tristão arregalou os olhos calejados por lágrimas perenes.

– Impossível! Como é seu nome, então?

Voltou a se encolher. Os pequenos destrocaram a confiança por desassossego renovado. Grudaram-se à saia escorrida. Sílabas gagas escaparam amedrontadas.

– Es... Es... Es... pe... ran...ça...

Murmúrios percorreram a aldeia. A frustração retornou sorrateira, invadindo olhares fatigados. Tristão e o povo mergulharam no abismo do desencanto. O círculo se alargou. A visitante inspirou fundo. Expôs a coragem das grandes guerreiras. Ergueu os braços.

– Sou Esperança, sim! Fui invocada milhares de vezes. Prometida outras tantas. Cruzei desertos. Pisei espinhos. Sangrei meu destino. Atendi aos apelos. Trouxe valentes mirins. Penitenciei pecados. Atravessei sombras, invernos, tormentas. Acatei o desejo. O chamado era por mim, Esperança. Por que a decepção?

Grito no âmago da aglomeração irrequieta.

– Quanto tempo vai ficar?

– Isso importa? Agora vocês me têm à disposição. Hoje Tristão nos deixa. Assumo o lugar. Acaba a tristeza. Eu, Esperança, cheguei.

A resposta veio qual ordem peremptória.

– Queremos Dona Ventura!

O jogral se organizou. O canto empurrou a escuridão humilhada. Ricochetou nas nuvens.

– Queremos Dona Ventura! Queremos Dona Ventura! Queremos Dona Ventura!

Esperança tentou acalmar os desesperados. Os gestos se perderam na insurreição incontida, penetrando vielas fétidas, moribundas.

– Queremos Dona Ventura!

Seu Tristão pediu a palavra num aceno de liderança submissa. O povaréu aquietou-se.

– Estou velho! Mas ficarei!

Encarou Esperança. Furibundo, apontou a saída.

O apupo eclodiu. No corredor feito revolta, Esperança, sua descendência, seus trastes, arrastaram-se acuados.

– Fora! Queremos Ventura! Fora! Queremos Ventura!

Tristão reassumiu o comando.



(09 de novembro/2002)
CooJornal no 285


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br