30/11/2002
Número - 288

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Airo Zamoner
CLAUDINE |
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Ela se destaca nos meus olhos. Saltita alegrias. Nos rodopios, o
vestido de rendas e babados restaura harmonias antigas. A minúscula
mãozinha agarra o pai carrancudo. Puxa-o na avidez de conhecer os
detalhes do mundo. Aos gritinhos, arrasta-o, estimulando-o a ver. Ver
e opinar. Dizer como é lindo, como é feio, engraçado, estranho, tudo
que se oferece descompromissado aos seus olhinhos curiosos.
Observo e meu coração dói. Vontade de agarrar esse pai pelo colarinho.
Sacudi-lo com violência pedagógica. Acordá-lo dos seus trinta,
quarenta anos. Forçá-lo a sentir a felicidade que flui gratuita por
seu braço indiferente. Gritar para que olhe, uma vez ao menos, para
baixo. Fazê-lo ver que a vida berra na alegria voluntária da filha,
pesquisadora do mundo.
Contenho-me e ele continua preso à mão que descobre, investiga, apalpa
e sorri para o rosto cego. Indiferente, prefere manter-se mergulhado
nos mesquinhos corredores de seus problemas. Nem um olhar solidário.
Perdido, se mantém nos escaninhos abarrotados de lixo pantográfico,
gradeando o mundo para ele travestido de inferno, para ela enfeitado
de paraíso.
Ela não desiste. Puxa e o faz com a força do entusiasmo. O pai arqueia
o corpo e quebra a indiferença. Por um lapso de tempo imaginei que
algo trincaria naquele instante e um sorriso vazaria, senão da boca,
ao menos dos olhos. Não! Ao contrário. Uma reprimenda bruta. Um puxão
no braço franzino e o abuso de palavras duras.
A menina encolhe o corpo. Recolhe as luzes do rosto. A mão que sobra
vai à face, na tentativa falha de enxugar lágrimas salgadas. O choro
chega aos meus ouvidos e meu coração se estilhaça.
Ela, que vinha qual batedora, explorando caminhos, agora encurta o
corpo. Fica para trás e é arrastada com pressa. Seus passos pequenos
não vencem os do pai embrutecido. Tropeça e desaba. É erguida aos ares
apenas pelo braço delicado. Seus pezinhos se arrastam e uma sandália
escapa. Indefesa, larga o corpo indo ao chão. Último recurso contra a
força da cegueira. Impedida pelos soluços, não articula uma só
palavra. Aponta o dedinho minúsculo para o calçado fujão e novos
impropérios invadem os seus ouvidos puros.
Impossível manter-me estático. Saio correndo da minha indiferença
forçada. Chego ofegante. Junto a sandália cor-de-rosa e me agacho.
Pego seu pezinho, limpo-o carinhoso e visto o calçado rebelde.
Lenço na mão, enxugo suas lágrimas abundantes. Digo palavras doces.
Ela interrompe o choro. O pai emudece.
Falo da beleza do seu vestido de rendas e babados. Explode um sorriso
que espanta a mágoa. Eu a ponho em pé e afago suas roupas. Trocamos um
olhar profundo. Pergunto seu nome. Ela se atira em meus braços.
– Claudine!
Enlaça meu pescoço e os transeuntes param. O abraço é longo,
carinhoso, delicioso.
O pai se desajeita. Ameaça um sorriso de ternura falsificada.
Aborta-o. Constrange-se pela evidência. Recompõe-se movido por
amarguras e despreparo. Ergue-a ao colo com violência e retoma a
caminhada apressado.
Virada para trás, queixo apoiado no ombro do pai, ela vai sacolejando
e me acena. Atira-me beijos imensos. Perde-se na multidão.
(30 de novembro/2002)
CooJornal no 288
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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