07/12/2002
Número - 289

|
Airo Zamoner
QUEBRE SEUS CRISTAIS |
 |
Os olhos descontraídos, vagabundos, sem destino, dançavam pela sala.
De repente bateram na velha cristaleira. Um rasgo iluminado de alhures
fixou-os ali por um instante.
Lá estavam garbosamente enfileirados, lindíssimos copos de cristal.
Antigos. Seus pensamentos relampejaram refletidos na pureza que se
expunha há tanto tempo. Disciplinados, ansiavam por uma hora de luzes
que certamente viria algum dia a justificar sua existência.
A nostalgia incomodou suas lembranças. Levantou-se e caminhou pela
casa. Atônito, vasculhou as coisas fora do comum que morriam pelos
cantos na expectativa de um momento único. Nos armários, roupas que
nunca foram usadas, aguardavam conformadas um evento importante. Nas
gavetas, jóias que o futuro prometia fama. Enfeites, bibelôs,
porcelanas, broches, lenços de seda e tantas coisas intocadas se
amontoavam, sempre a espera do momento diferente de todos, da hora
incomum a justificar seu uso.
Seus passos ecoavam surdos e os chinelos corroídos se arrastavam. Na
caixa, um outro chinelo de couro novo aguardava quieto, pacífico, a
hora divina para explicar-se. No guarda-roupas, a virgem camisola de
seda pura quedava-se para o momento certo.
Agora, vagava qual fantasma entontecido na solidão do casarão
abandonado. Onde estariam todos que desejavam com ele os instantes
supremos? A bruta realidade empurrou pra fora dos olhos, lágrimas
desconsoladas. Afloraram com elas, as vidas estupidamente comuns que
não justificavam nada surpreendente.
Velho, carcomido, decrépito, nem ele nem os seus, viveram algo
extraordinário a justificar a inauguração dos símbolos escondidos
pelos ângulos a se inutilizarem no tempo.
Arrancou o lençol da poltrona, desnudando-a de seu recato dormente.
Seu revestimento delicado estremeceu. Nunca foi usada, afinal ainda
não acontecera a magia do inusitado. Ficaria ali até que a morte do
movimento a mergulhasse na penúria do abandono completo. Desvestiu-a
com raiva. Atirou-se desleixado, sobre ela. Balançou-se o quanto pode
e adormeceu, babando sobre o revestimento em luxo.
Acordou com o barulho da casa. Espantou-se. A vozearia vinha lá da
cozinha.
Como era possível estar ouvindo a voz da esposa, dos filhos, se todos
já haviam partido?
Pareciam alegres e muito vivos. Levantou-se. Foi até o quarto. Vestiu
roupas de festa. Sem uso. Espantou a todos ao chegar lá embaixo.
Segurava aquele vinho dos anos sessenta que guardara para uma ocasião
única. Abriu-o sem cuidados sob o olhar assombrado da esposa e da
aflição dos filhos.
– O que é isso Alfredo? Enlouqueceu?
Enlouqueceram todos juntos. Quebraram os cristais em mil peças.
Beijaram-se. Abraçaram-se. Festejaram como nunca o dia mais comum de
suas vidas.
(07 de dezembro/2002)
CooJornal no 289
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
|
|