14/12/2002
Número - 290


 


Airo Zamoner
  

O GENE DA HONESTIDADE

O laboratório estava em polvorosa. Lá de fora a Universidade parecia a mesma de sempre. A cidade também. Também o país e o mundo. Algo extraordinário, porém, estava acontecendo lá dentro. Movido por uma curiosidade desonesta, eu estava lá. Espiava, ouvia e assistia a tudo de forma sorrateira.

O projeto Genoma andava pela mídia, mostrando uma descoberta atrás da outra. Quase todas as características e anomalias humanas estavam mapeadas e os mistérios desabavam, dando lugar à lógica das coisas. Os mestres, os cientistas, os estagiários ouviram o professor falar sobre a tenebrosa e assustadora descoberta.

A proposta era destruir a experiência e esquecer o acontecido. Não havia unanimidade. Discutia-se a possibilidade de uma virada social, política, econômica, humana e não se conseguia imaginar a extensão das conseqüências.

Fiquei paralisado quando ouvi. E ouvi claramente. A honestidade humana fora isolada num segmento do código genético. Era possível enxergar a gradação, caso a caso. Era viável sua manipulação, modificando a tendência tanto para mais, quanto para menos. Um mero exame de DNA permitiria identificar o honesto e o desonesto. E mais. Estabelecer um grau de zero a dez. O que é pior, ou quiçá melhor, cada um poderia submeter-se a uma intervenção para mudar o seu grau.

A sala ficou em silêncio por infinitos minutos. Eu continuava congelado, ouvindo clandestinamente e sendo testemunha da história. Um dos cientistas falou desanimado:

– Que autoridade poderia ser chamada a opinar? A decisão seria honesta? Todos aqui estariam pensando numa solução honesta para a questão? Qual o nível de honestidade de cada um de nós?

Essas perguntas provocavam o silêncio repentinamente quebrado pelo professor. Tinha uma proposta. Antes de saírem daquela sala com a informação, ou convidarem quem quer que fosse para opinar, deveriam se submeter a uma intervenção, colocando seu grau na escala máxima. Feito isto, se reuniriam novamente e, aí sim, a decisão seria honesta e válida.

O grupo foi então posto diante de um dilema. Queriam todos se tornar absolutamente honestos para sempre? Novo silêncio aprofundou a meditação. Cada um pensando nas vantagens que obteve até aquele momento graças a pequenas e grandes desonestidades praticadas. Cada um projetou sua vida futura sendo absolutamente honesto e sentiu medo. Medo de perder qualquer coisa que fosse.

– Impossível!

O grito feriu a introspecção coletiva. A explicação veio aterradora.

– A proposta do professor pode estar sendo originária de uma desonestidade sua. Ele quer levar vantagem em ter a sua volta, somente honestos puros. Eles serão facilmente ludibriados e lutarão sempre com deficiência de armas. Ninguém aqui é absolutamente honesto para tomar a decisão de se transformar em absolutamente honesto.

Depois de mais um longo silêncio voltaram ao laboratório e destruíram todos os vestígios da mais revolucionária descoberta. Nunca mais se ouviu falar do assunto. Você ouviu?



(14 de dezembro/2002)
CooJornal no 290


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br