21/12/2002
Número - 291
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Airo Zamoner
A RENÚNCIA DO PINHEIRO |
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Na Praça Tiradentes, esticou-se o quanto pode. Envelheceu na inglória
luta de se manter altaneiro. Apequenado por arranha-céus, amainou
teimosias. Do alto da sabedoria velhustra ouviu conversas de amores,
de traição, conluios, golpes.
Não foram poucas as vezes que interferiu como permitia sua condição
natural. Foi incisivo, atirando grimpas, desfazendo conspiradores,
salvando-os da tortura mais que da morte.
Falar, não podia. Mas gritava, farfalhando retórico, assustando o
cético em plena calmaria.
Eu o conheci no calendário bastardo da tirania. Agarrado em seu corpo,
sussurrei meus segredos em madrugadas geladas. Falei da aflição de
minha gente, ludibriada escancaradamente há décadas. Jogada de
esperança em esperança, calejando mãos e coração, alma e juventude,
morrendo pouco a pouco na desesperança dos filhos sonhadores. Chorou
comigo, explodindo seu fruto em gotas de pinhão amadurecido a
ricochetar em morse saltitante, repudiando bandidos encapsulados nos
andores.
Volto lá quando posso. Fui lá na calada da noite. Era véspera do dia
fatídico. Abracei-me a ele, invadindo canteiros. Ele me reconheceu.
Acenou-me, tremulando os galhos mais elevados. Foi então que aconteceu
o inusitado. Convulsivamente, derramou suas lágrimas avermelhadas,
pontiagudas, salpicando minhas costas com dolorosas cutiladas. Tentei
acalmá-lo. Não havia consolo. Sua tristeza era derradeira. Chorou
novamente tal qual criança abandonada.
Abraçado a seu tronco, o tremor me contaminava. Do fundo de meus
dissabores ousei dizer que entendia suas amarguras. Eram profundas.
Ouvi-o constrito. Não se conformava com o riso do sonho inútil,
disseminado com malandrice desavergonhada. Despedia-se. Num golpe rude
atirou-me para longe. Gritou que estava cansado de assistir a
passividade estúpida dos ingênuos, diante do egoísmo crasso dos
espertos. Desistia de estender seus braços e gerar sombra protetora
estéril. Estava caindo fora. Não suportava continuar vendo a alegria
abobalhada dos enganados a se locupletarem de esperanças infantis, nem
a concupiscência safada dos salvadores nominais. Muito menos queria
ver os neófitos do poder transmudados e corrompidos em soberba elite,
reconspirando com os criminosos sociais do passado, a manutenção
espúria do comando.
Neblina densa encobriu o largo. Na manhã seguinte, despediu-se para
sempre. O Sol dissipou a névoa. O povo invadiu a praça cheio de
esperança renovada.
(21 de dezembro/2002)
CooJornal no 291
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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