01/02/2003
Número - 300


 


Airo Zamoner
  


CONVERSA ENTRE MINISTROS

– Não tenho palavras...

– Isto acontece. Não se preocupe...

– Agradeço sua.... sua... sua...

– Não precisa agradecer!

– Como, não precisa?

– Não se incomode em procurar palavras.

– Mas quero agradecer...

– Já que insiste...

– ...

– E então? Estou esperando...

– É! Realmente não tenho palavras...

– Isto acontece. Não se preocupe...

– Agradeço sua compreensão

– Já disse que não precisa!

– Claro que precisa. Não sou mal educado...

– Você está sem palavras, lembra? Como vai agradecer?

– Mas insisto em agradecer...

– Tudo bem. Considero-me agradecido.

– Isto é muito pouco...

– Não me oponho. Se quer mais, eu aguardo seu agradecimento com toda a paciência. Agora que sou ministro, tenho tempo...

– ...

– Estou esperando...

– É que...

– Já sei! Continua sem palavras...

– Isto mesmo!

– Não esquente! Ficar sem palavras para agradecer já é um grande agradecimento.

– Gentileza sua! Isto não me conforta. Preciso agradecer de verdade. Com palavras significativas.

– Você está melhorando. Já saíram algumas palavras. Mas tenho tempo. Posso esperar um pouco. Posso esperar bastante. Só o povo talvez não tenha tanto tempo...

– ...

– Acho que não adianta. Você está mesmo sem palavras.

– Que faremos? Preciso de palavras pra agradecer e também pra fazer algum plano pro país...

– Calma! Por que temos que fazer alguma coisa?

– Porque assumimos o poder e o povo espera...

– Tenho uma sugestão...

– Resolve o problema das palavras?

– Acho que sim...

– Ótimo! Qual é?

– Mudemos de assunto.

– Boa idéia! Qual é o assunto?

– O assunto? Que assunto?



(01 de fevereiro/2003)
CooJornal no 300


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br