08/02/2003
Número - 301



 


Airo Zamoner
  


ALGUÉM VIU ZÉ PEDRO?

As chaves, imitando cincerros, tilintavam pelo corredor escuro do velho colégio. Zé Pedro arrastava os passos, balançando o corpo cansado. Parou em frente ao calendário preso à parede, perdido entre os trabalhos escolares do ano anterior. Contou os dias que faltavam para acabarem as malditas férias. Entrou no quartinho improvisado. Improviso que durava quarenta anos.

– Ou seriam cinqüenta? – balbuciou o pensamento confuso.

Pendurou as chaves no quadro, respeitando as etiquetas antigas. Números apagados. Desnecessários. Acharia seus lugares na mais profunda escuridão, tantas foram as vezes que tirou e recolocou aquelas inúmeras chaves. Olhou a cama desfeita, embutida sob a escada larga.

– Um dia ainda vou arrumar essa cama. Deixa acabar as férias...

Pegou a chaleira. Sacudiu-a perto do ouvido. Sentiu o peso. Recolocou-a sobre o fogareiro. Ligou-o e ligou o rádio quase desaparecido no meio de papéis, caixas de fósforos, isqueiros vazios, cheios... Jogou-se na cama, desviando a cabeça da escada, numa habilidade esperta, conseguida depois de tantas cabeçadas.

– Mas isto foi há tanto tempo! – os olhos se fecharam momentaneamente.

O professor Euclides chamou o negrinho que jogava futebol com os alunos.

– Qual o seu nome, menino?

Bem que os alunos tinham avisado.

– Olha aqui, Pedrinho! Você pode jogar, mas se o diretor pegar você aqui dentro, nós não temos nada com isso. Fique esperto porque qualquer dia isso vai acontecer!

Agora estava ele bem na frente do grande diretor. Expulsão certa. Descobriria que estava dormindo no canil abandonado desde que a enchente do Rio Belém arrastou o barraco e levou a mãe e a irmã. Vagou três dias até chegar no colégio. Entrou devagarinho. Os meninos o convidaram pra jogar. Faltava um no time improvisado. Entardeceu. Foram todos embora. Ele ficou. Viu o canil. No dia seguinte, Dona Carola o achou acocorado, com frio. Deu pena. Levou restos da merenda escolar. Estava tudo indo bem. E agora o diretor bem à sua frente. Perguntando alguma coisa.

– Se for expulso do canil, o que vai ser da minha vida? – balbuciou cabisbaixo.

– Perguntei qual o seu nome? Olhe pra mim, e fale direito rapaz!

A chaleira saracoteou no fogareiro. Zé Pedro saiu dos devaneios. Levantou-se desviando a cabeça. Coou o café para dentro da garrafa térmica. Preparou a xícara. Recostou-se na cama. Sorveu gole a gole. Café amargo. Acostumou-se com a amargura. Os olhos fixos em lugar nenhum.

– Quantos anos você tem, Zé Pedro?

Ele respondeu que tinha quatorze. Agora tem cinqüenta e nove. Será sessenta? A mãe tinha uma caixa de sapato cheia de documentos. Sumiram todos no dia da enchente. Malditas férias, estas. Escola vazia. O novo diretor...

– Quantos diretores passaram por aqui nesse tempo todo? – tentou contar inutilmente.

Cada troca de direção era momento de angústia, de sofrimento, de incertezas. Dona Carola sempre o consolou e sempre deu um jeito. Segunda mãe, essa Carola.

– Por que tinha que morrer e me abandonar? Quem vai acertar as coisas pra mim com esse novo diretor? Carola deve estar com minha mãe! E eu? Sozinho!

O Sol acordou e se espreguiçou, esticando os braços longos e luminosos para dentro do pátio do colégio. Os alunos estavam todos lá, de repente. Ensurdecedor o barulho. As redes não foram colocadas na cancha. As bolas não estão cheias e prontas para uso.

– Onde se meteu o “seu” Zé Pedro?

Gritaram o nome dele pelos corredores barulhentos. Chegaram ao cubículo sob a escada. Tudo estava no lugar. Assustaram-se ao ver a cama arrumada. Impecável como nunca viram. Sobre a cama lisa, uma caixa de sapatos velha. Abriram curiosos. Reviraram. Lá estava a certidão de nascimento do Zé Pedro. Faria sessenta anos hoje!


(08 de fevereiro/2003)
CooJornal no 301


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br