22/02/2003
Número - 303
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Airo Zamoner
GUITA É DIFERENTE! |
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Guita não foi menina como as outras. Nem moça era como tantas. Quando
mulher, sempre especial. Envelheceu e está sentada lá fora. Lê mais um
romance. Seus óculos pendem sobre o nariz. Muito ladinos, porém,
deixam a fresta superior para espiadas curiosas.
Adora o verão. Única época do ano que a convida para sua caminhada
curta e o deleite da praça.
Uma olhadela furtiva. Um espanto. Uma garotinha encolhida. Lágrimas
silenciosas. Rejeição violenta para as brincadeiras do grupo. Cai para
trás, perdendo apoios.
– Sai pra lá! Você só atrapalha. A gente quer brincar...
Não há tempo para argumentos contra o desprezo. Não há lenitivo. Há
dor. Há lágrimas, escorrendo emudecidas pelos longos caminhos do seu
presente, do seu futuro.
Guita observa aflita, angustiada, penalizada, espantada com a
semelhança. A imagem, a menina, a violência, as lágrimas, o abandono.
Tudo muito conhecido. Viveu muitas vezes a mesma cena. Um aperto
grande no peito leva sua mão ao coração. Vontade de se aproximar.
Explicar o sofrimento inexplicável. Misturar as lágrimas. Revelar o
caminho duro que a espera. Suavizar os espinhos cruéis que por tanto
tempo dilaceraram impiedosos, sua alma de criança, de moça, de mulher.
Contém-se diante de suas próprias limitações. Entristece os olhos.
Intempestivamente, reage. Acena frenética. Primeiro com uma das mãos.
Depois com as duas na esperança de que a visse e pudessem trocar
consolos.
Inesperadamente, a pequerrucha limpa as líquidas cicatrizes. Ergue a
cabecinha e se depara com Guita, alucinada, gesticulando. Ela ri
descontraída, quase gargalha, lambendo restos de choro salgado, numa
mistura desinibida de tristeza amarga e alegria doce.
Guita não pára. Aumenta os gestos quanto pode e abre sorrisos imensos.
A pequena retribui. Ergue os pequenos braços, expondo as palmas
gorduchas. Guita sincroniza os gestos, suavizando movimentos. Inicia
uma dança ritmada. Para a esquerda, para a direita. A menina aumenta o
riso e imita o ritmo com maestria. As coreografias se sucedem, ora é
Guita que inova, ora é a pequerrucha que inventa.
Nenhuma palavra. Apenas gestos, ecoando mensagens densas pelos ares,
suavizando corações em sintonia, quebrando aflições, abrindo brechas
de paraíso. Efêmeras, é certo, mas brechas luminosas a afrontar,
corajosas, a amargura insistente dos seus destinos.
As brincadeiras do grupo se interrompem. A praça paralisa a vida
estúpida. Estupefatos, todos se fixam nas duas, enlouquecidas de
prazer numa dança de braços, mãos, sorrisos, provocando as alegrias
mais intensas a compensar agruras antigas e agruras do porvir.
Alguém bate suavemente no ombro de Guita. É hora de se recolher. Do
outro lado da praça, a mãe da garotinha ergue-a do chão. Ajeita as
pequenas muletas e volta ao treinamento. Guita, já de costas,
gesticula um adeus, sumindo em sua cadeira de rodas.
(22 de fevereiro/2003)
CooJornal no 303
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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