08/03/2003
Número - 305
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Airo Zamoner
CINE LUZ, O INCÊNDIO |
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As chamas espicharam-se para o céu. O teto desabou em cascata. Os
gritos histéricos contaminaram a todos. Depois, tudo se acalmou. E eu,
não sei porque, ainda perambulava pela Praça Zacarias naquela hora.
A aglomeração antes inquieta, agora não emitia mais sussurros
penalizados. As sirenes desmaiavam e morriam aos poucos, perdidas por
entre os prédios vizinhos. O fogo crepitava baixinho, depois da orgia
desenfreada de horas sem descanso. A luz ainda se espraiava mortiça
pelas brechas da praça.
Parei aos poucos, olhando o Cine Luz em brasas nas minhas lembranças.
Não! No lugar dele, sóbrio, jaz um prédio sem graça, vazio. Um lugar
outrora cobiçado e que já abrigou banqueiros gargantudos de além-mar.
Dos mesmos banqueiros que pululam pelas vielas brasileiras à cata
desesperada de bolsos, recheados ou vazios, para aplicarem a usura
oficialmente descarada.
Que sina, a verde amarela!
Os banqueiros, máquinas mortíferas, sobrevivem aos espasmos da
cultura.
Somem os cinemas incendiados, nunca os bancos e seus cofres de aço.
Quebram as livrarias e as bibliotecas morrem de tédio, mas os bancos,
as financeiras, os laboratórios, os planos de saúde e o fisco se
empanturram pançudos e despóticos.
Com descarado escárnio ao povo, escancaram a coragem de galgar os
degraus esculpidos de argamassa bifada e se postam, mais uma maldita
vez, no comando supremo da nossa esperança pateta.
Sim! É isto mesmo! Lá estão os banqueiros estrangeiros ou nacionais,
não sei por qual estratagema espúrio, novamente encastelados. Não
importa quem preside o sofrimento desesperançado que ciclicamente
ressuscita.
Cruzei os braços. Espalhei meus olhares como grande angular. Não
reconheci a praça do Cine Luz, nem meu país sonhador, cadáver a
ressurgir clandestino em meus delírios absurdos. Só vi mesmo a praça
desvirtuada, estuprada, a derramar distraída, seus líquidos gosmentos
pelo repuxo abandonado.
As sirenes ressurgiram, abalroando meu pesadelo. O incêndio antigo do
Cine Luz da minha adolescência já não me iluminava. Pasmado, vi
queimarem, isto sim, os cofres recheados de juros, impostos e
malandragens, sob os aplausos e risos da nação.
Ao invés de me unir ao júbilo, chorei convulsivamente, jamais pelos
cofres perdidos, mas pelo breve soçobrar das esperanças nascituras.
(08 de março/2003)
CooJornal no 305
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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