22/03/2003
Número - 307
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Airo Zamoner
ALDRAVA |
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Cabisbaixo, lento, manquitolava em direção à porta. Chegou, levantou a
cabeça, deslizou o olhar, admirando os entalhes na madeira antiga.
Encostou a bengala carcomida. A aldrava imensa reluzia o Sol. A fenda
logo abaixo, não foi percebida. No alto, a câmera não se camuflava à
pesquisa mais atenta.
Súbito, o pequeno tapete metálico sob seus pés iluminou-se. A luz, cor
ciano subiu tal qual neblina incandescente, revestindo-o assustado.
Apagou-se num repente. O calafrio estremeceu o corpo adoentado. A
fissura cuspiu um filete laser magenta, cruzando o etéreo azul que se
dissipava. O tapete se apagou. As luzes se recolheram. O velho
virou-se ágil. Saltitou pelas escadas, rejuvenescido. Cabeça erguida,
sorriu abobalhado, entrando na multidão que aguardava
disciplinadamente enfileirada.
Olhos fixos na aldrava brilhante, a velha tomou seu lugar. Aguardou
ansiosa. Alternava piscadelas entre o chão e a madeira nobre. O tempo
se arrastava preguiçoso. Ela ajeitava os pés, remexendo-se. Olhos
arregalados, esperava reações.
Repentinamente, a luz vermelho-sangue acendeu o tapete. Subiu tal qual
fumaça, cobrindo-a e sugando-a pela fenda. Um minuto, ou um século se
passou. Um suave murmúrio se ouviu na multidão enfileirada.
Lembrei-me que o local era bem conhecido. Era o centro de minha cidade
sorriso. Examinei em volta e nada mais se parecia com as imagens da
memória. Só o relógio da Rua das Flores era familiar. Alternava três
informações: a data, a temperatura e um outro número que trocava com
rapidez. Indicava a população da cidade.
A data me causou nostalgia. Derrubou-me da realidade. Esfreguei os
olhos tentando lembrar que eu estava ali apenas por um mal-estar
repentino. Talvez uma gastrite insistente.
Aquela fila, o velhinho rejuvenescido, a velha sugada para sempre, e
eu naquela espera absurda, nada disso estava em minhas cogitações do
dia.
Pensei no céu. Ele poderia me dar o conforto de algo familiar. Olhei
para o alto. Busquei uma frincha entre os prédios. A abóbada não
estava azul como a conheci. Tinha muitas cores. Mensagens esvoaçavam
de um lado a outro como écran gigantesco. Nuvens esparsas em forma de
palavras deslizavam programadas.
Esfreguei os olhos. A fila avançava aos poucos. Logo chegaria minha
vez. A aldrava brilhava ainda. Ninguém a tocava.
A rotina prosseguia. Ora um desaparecia solo abaixo, ora se curava de
seus males.
A cidade estava muda. Meus ouvidos zuniam e eu era o próximo. Lá na
entrada, o menino tremia. Tentava fugir do tapete. Levitou a
contragosto. Pousou. Aguardou as luzes. Vermelhas!
Tentei sair da fila. Voltar para minha casa, para meu bairro.
Encontrar o meu trabalho esperando. Ver as pessoas que conheço. Falar
com qualquer um as bobagens de todo o dia. Encontrar novamente o céu
sem mensagens. Azul! Só azul. Poderia até ser cinzento, ameaçando
chuvas ou tempestades. Pouco importaria isso! Se chovesse, não
reclamaria. Sentiria as gotas baterem na minha cara barbuda e gritaria
que estou acordado. Que tudo é uma grande mentira, uma armadilha das
minhas sinapses cansadas.
Não! Tudo em vão. Fui empurrado e me aproximei da maldita porta
entalhada. Vontade eu tive de não pisar no tapete assassino e anjo.
Suga para os infernos, usando critérios que desconheço.
O que aconteceu, afinal? Quem é o dono das decisões de agora? O que
fizemos com nossa desumanidade?
Estou agora na posição exigida. Aguardo as luzes. Azuis ou vermelhas?
Foi quando pensei em fazer algo diferente de todos. Peguei firme na
aldrava e bati com todas as forças contra o despotismo instalado. Os
ruídos da cidade voltaram. Virei-me e a fila desaparecera. A minúscula
fresta de céu, lá em cima, mostrava o azul conhecido. Nuvens
transitaram por ali, brancas, mudas. Respirei fundo. Apalpei o
estômago e bendisse a gastrite que continuava comigo.
(22 de março/2003)
CooJornal no 307
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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