18/04/2003
Número - 311


- A renúncia do pinheiro
- Aldrava
- Alguém viu Zé Pedro?
- Amor platônico
- Cine Luz, o incêndio
- Claudine
- Conversa entre ministros
- Coração em pânico
- Guita é diferente
- Motim
- O gene da honestidade
- O menino e os ipês
- Quebre seus cristais
- Onde está D. Ventura?
- Quebre seus cristais
- Quem fez a Ponte do Patriarca?
- Quem paga a conta?
- Um prato de livros
- Você também saberá a verdade

 


Airo Zamoner
  


O QUE HÁ ALÉM DO FOSSO?

Existem segredos inexpugnáveis a proteger os palácios. Houve um momento histórico em que se conseguiu espiar alguma coisa aqui de fora. Muito pouco e por um átimo de tempo. Foi quando o menino inocente denunciou aos gritos que o gordo rei estava nu. Verdade dolorida que escandalizou o mundo e foi rapidamente empurrada masmorras abaixo, para que o povo voltasse a ser feliz e não ousasse mais se aproximar das verdades tão bem ocultas.

Outro momento importante foi quando o poderoso rei esforçou-se para dar pão e circo ao povo, mas foi desmascarado séculos depois, descobrindo-se que ele queria mesmo era manter esse povo impertinente, longe de seus doces mistérios.

Vinte séculos, ou vinte vezes vinte, e os arcanos do poder continuam muito bem guardados aqui pertinho de nós, nos palácios modernos que ajudamos a construir e manter com nossa contribuição compulsória, entregue com nossas calejadas mãos, molhadas com suor de lágrimas.

Há um fosso imenso a separar povo e palácio, palácio e povo. Vencer esse lamacento abismo onde habitam monstros famintos e a magia negra bóia ameaçadora, é o desejo absoluto dos mortais, cada vez mais mortais. Para atravessá-lo, buscamos educação, filosofia, estudo, cidadania, consciência política, democracia.

Santa e adorada democracia que se perdeu na ignorância forçada do povo sedento! Ela exige como pré-requisito do seu praticante, a capacidade de desvendar mistérios, descobrir segredos. Sem isso, é uma ferramenta a serviço dos espertalhões de plantão. De que vale ofertar a democracia com a mão esquerda e com a direita, os além-fosso, solaparem com todas as forças o direito ao conhecimento. Quem é tão ingênuo para acreditar que os poderosos, sentados em seus tronos e contas bancárias, desejam sua prática? O conhecimento, escada para a democracia verdadeira, é ofertado em doses homeopáticas apenas como calmante, ou quiçá, sonífero para rebeliões incômodas.

As doses verdadeiramente eficientes de conhecimento têm custos inatingíveis. Para enfrentar esses custos, busque a riqueza que está do lado de lá, dizem eles a boca pequena. Mas e a riqueza? Ora essa! Para conseguir a riqueza, busque o conhecimento, plebeu imbecil!

Nenhum estudo sociológico deixa de detectar a nítida divisão da sociedade em pelo menos dois grupos: eles, os donos dos enigmas ocultos e nós, suas inúteis vítimas úteis.

Para complicar ainda mais o desvendar dos mistérios, no grupo de cá existem outras duas divisões. Os que estão doidos para descobrir o que há além do fosso, e os que nem de longe desconfiam que existe o próprio fosso!

O jovem aspirante a sociólogo nas suas lides acadêmicas profundas, pensou que a mazela principal da tripulação passageira deste planeta em rota de colisão certeira sobre algum buraco negro qualquer, desaparecerá com o decifrar, e decifrando, exporá à execração pública os que moram além-fosso. Secará o fosso. Desmantelar-se-á cada palácio. Dar-se-á enfim o conhecimento ao povo e por conseqüência, chegará a sonhada democracia. Ledo e juvenil engano. Sou obrigado a desencantá-lo. Estes segredos contém um componente de terror sociológico. Um componente de magia negra, ao qual nem mesmo bruxos e bruxas profissionais ficam imunes. Todo aquele que desvendar um segredo, um único que seja, e ousar revelá-lo, será contaminado de forma indelével e compelido por um desejo interior absoluto a atravessar o fosso e a abandonar seus pares, para todo o sempre.

A notícia não é boa, eu tive que revelar ao meu jovem futuro filósofo. Você, como eu e tantos outros, já desvendamos esses segredos, sabemos muito bem. Entretanto, não podemos revelá-los abertamente, se não quisermos bandear inapelavelmente para o lado de lá.


(18 de abril/2003)
CooJornal no 311


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br