02/05/2003
Número - 313

 


Airo Zamoner
  


A ESPERANÇA E O LIXO!

Ninguém presta atenção a essa bruma particular que a "boca de lobo" expulsa, assim que a noite morre. É um lamento profundo pela sujeira do mundo que é forçada a guardar.

A carrocinha pára em cima de uma dessas grades e a fumaça interrompe seu fluxo. Congela o lamento num sossego temporário. Protege-a de boa parte do descarte humano que se acumula pelas sarjetas nesse amanhecer adolescente.

O catador, autêntico animal de tração, se desencilha das hastes. A carrocinha bate sem delicadeza a parte traseira na rua. Em meio à desordem do lixo-riqueza que escorre ao apelo da lei da gravidade, duas crianças, passageiras ingênuas, riem gostosamente. Escorregam entre o barulho surdo de velhos e imundos jornais amassados e o ruído estridente das latas e garrafas plásticas não tão vazias. Líquidos promíscuos, fingindo-se de cosméticos de alta grife, melam a pele suja. O pai não presta atenção à alegria contrastante de sua prole. Cara amarrada, caminha rápido e ríspido pela calçada. Pára junto ao lixo acumulado. Faz competente separação. Volta abarrotado de mais lixo e o despeja sobre as crianças. Lixo bom que se transforma em momentâneos, mas excitantes brinquedos.

O catador, magro e leve, se abaixa sob as hastes da carrocinha e reassume o papel de animal tracionador. O corpo se inclina ao extremo, compensando a maldita inércia e o peso ultrajante. Lentamente, o veículo, sua carga, seus passageiros, se movimentam em direção a novas coletas.

O dia avança e o tráfego se agita. Um automóvel é obrigado a desviar a carrocinha. Uma longa buzinada não chama a atenção de ninguém. O motorista, abre a janela do passageiro e grita:

– Sai da rua, vagabundo!

Nosso catador, experiente e impassível, não esboça reação. Tem pouco tempo para recolher suas esperanças e voltar a seu barraco. Precisa nos livrar do lixo nosso de cada dia. Andará quilômetros. Irá separar o que juntou e vender por alguns centavos. Dormirá sobre seus sonhos e amanhã retornará à cidade. Vai tocar sua vida, mantendo acesa alguma esperança escondida nos descaminhos de sua infância. É calejado, experiente. Não responde mais às provocações. Apenas trabalha duro, carrancudo, olhando seus filhos que ainda riem, brincam e se divertem no meio dos dejetos de nossa sociedade vagabunda, esperando o dia de se encilharem também numa outra carrocinha e serem chamados de vagabundos. Chegará a hora de trocarem o riso fácil e o brinquedo improvisado por olhares sérios, carrancudos, desiludidos, mas revoltados.

A revolta do catador se transforma em ação. Os catadores e assemelhados se agrupam e partem para a luta. Formam um movimento e despontam líderes. Aos poucos, as mesquinhas desvirtudes humanas transformam as intenções dos catadores-líderes. Liderando, deixaram de ser o que eram, para serem condutores dos sonhos de outros seus iguais. Percebem com o tempo que sua tarefa é rendosa e que é preciso manter seus liderados eternamente naquela mesma função. Se o movimento for vitorioso, seus líderes serão derrotados. E eles não querem perder mais. Precisam se preocupar apenas em dar esperanças e jamais a vitória. Querem realizar seus próprios sonhos e para isso precisam que os catadores e assemelhados não realizem os seus.

Há um tipo abominável de lixo a se espalhar pelas ruas para o qual não teremos catadores suficientes. Um lixo vagabundo que anda sozinho, hipócrita, egoísta, mesquinho, lixo prepotente e que passa por nós gritando sem parar:

– Sai da rua, vagabundo!



(02 de maio/2003)
CooJornal no 313


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br