17/05/2003
Número - 315

 


Airo Zamoner
  


O RECADO

A manhã estava um tanto fria quando cheguei aqui no centro. Sentei-me. Banco úmido da madrugada e eu ansioso para curtir meu jornal, afinal tanta coisa acontecendo por aí. Não deu tempo.

– É com você mesmo...

– Comigo? – dobrei o jornal e o encarei. – O quê?

– O recado!

– Que recado?

– De quem?

– Meu...

– O senhor tem um recado pra mim? Desculpe-me, mas nem sequer o conheço...

– É que estou disfarçado...

– Não me parece...

– Mas estou...

– Quem é o senhor? Qual é o recado? De onde o conheço?

– Só dou o direito de uma pergunta, não de três...

– O senhor me abordou. O senhor me deve respostas...

– É! Está lógico! Mas só uma pergunta. Só uma! Escolha a pergunta.

– Não aceito restrições. Ou faço todas as perguntas ou você vai ficar com o meu recado e amargar sua frustração.

– O recado não é meu. É seu!

– Você é que disse ter um recado. Lembra?

– Certo! Mas é um recado para você! Portanto é seu o recado!

– Será meu depois que eu o receber. Por hora é seu...

– Você está me desviando de minha missão. E me confundindo...

– Ou faço todas as perguntas e recebo todas as respostas, ou nada feito...

– Está bem! Vou permitir duas perguntas ao invés de só uma!

– Já disse que não aceito restrições...

– Não está curioso para saber qual é o recado? Não quer saber quem está envolvido? Não se importa que conseqüências pode ter?

– Olha aí! Agora é você despejando perguntas! Só dou direito a uma pergunta!

– Pensando melhor, não preciso de suas respostas. Preciso mesmo é dar o recado, mas você parece não se importar com ele. ..

– Se o senhor não me fornecer todas as respostas, não poderei dar crédito ao recado. Nesse caso, não me importo com seu conteúdo.

– Você não está sentindo um certo cheiro?

– Lá vem o senhor com mais perguntas! Ou democratizamos nossa conversa, ou nada de recado. Além do mais tenho um problema de olfato.

– Você vai acabar me vencendo pelo cansaço...

– Preciso ler meu jornal. Dá licença?

– Você já fez quatro perguntas. Agora mais uma...

– E o senhor não me deu nenhuma resposta.

– Então está bem! Respondo a todas as perguntas. Vá fazendo uma por uma.

– De onde eu o conheço?

– Não nos conhecemos!

– Quem é o senhor?

– João N. de Oliveira!

– E daí?

– Já disse que não nos conhecemos. O que esperava?

– Esperava que seu nome significasse alguma coisa, ora essa!

– Você está ficando nervoso!

– Nada disso! O senhor é que me põe nervoso!

– Não é minha intenção! Desculpe!

– Qual é esse maldito recado, afinal? Desembuche!

– Só queria avisar que o senhor está com o pé direito enterrado nesse monte aí no chão e eu tenho ótimo olfato! Tchau!



(17 de maio/2003)
CooJornal no 315


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br