24/05/2003
Número - 316



 


Airo Zamoner
  


A CHEGADA DE XENIK

Naquele tempo a cidade era um pequeno povoado. A vida escoava pachorrenta pelas frestas estreitas dos dias e das noites cansadas. A monotonia era a atração da moda.

A única!

Qualquer notícia, por mais sem graça que fosse, se espalhava pelas casas, pelos botecos, pela rua. Se não vinha da estação, vinha da rodoviária. Raramente pelo telefone lá do posto da companhia, ou pelo outro, no Armazém do Baldo. Não importava se era verdadeira ou falsa. O que realmente importava era ter uma notícia. E ela veio.

Era uma carta!

Balderico viajara pelo estrangeiro e conhecera Xenik. Todos conheciam Balderico que era filho de Baldo, o dono do armazém. Causava inveja, o Balderico. O mais estudado e sabido do lugar. Baldo estufava o peito.

Orgulho puro!

Agora, no armazém, não se falava em outra coisa a não ser em Xenik. Se Baldo era um sábio, Xenik era Deus. Se Balderico era o mais estudado, Xenik era doutor.

O supremo!

As moças do lugar se agitaram como nunca. Antes não se cansavam de assediar Balderico em todo o lugar. Ele sempre resistia indiferente. A cada viagem de Balderico, as moças tremiam. Era o medo de que junto com ele, viesse alguma grã-fina pondo tudo a perder. Não veio. Vinha Xenik.

Um alívio!

Baldo andava para cima e para baixo com a carta na mão. Verdadeiro troféu. Na carta, todas as incríveis qualificações de Xenik. Todos olhavam com imensa admiração e previam um futuro maravilhoso para a cidade. Finalmente um professor de verdade. Um médico, um cientista, um doutor. A sabedoria, a competência, a formação dessa figura tão esperada, com seus diplomas engatilhados para grandes façanhas, iriam transformar suas vidas.

Transformou!

O domingo estava ensolarado. A missa. A sagrada missa dominical foi adiada. O padre misturado à multidão tinha olhos ansiosos. A estação cheia. O trem chegava aos poucos, bufando fumaça branca pelas ventas. Xenik estava lá dentro, junto com Balderico. Os vagões deslizavam pela plataforma, formando imagens estroboscópicas com suas janelas intermitentes. Finalmente o guincho do aço nos trilhos se misturou com os gritos e aplausos do povoado inteiro.

O trem parou!

Em dias comuns, não se via o trem naquela estação perdida. Quando parava, ninguém descia, ninguém subia. Abastecia água na caldeira e prosseguia, bufando raivoso. Naquele domingo ele chegou solene. Aos poucos se fez um silêncio aterrador e absoluto. Olhares fixos na porta do vagão. Apareceu Balderico. Irromperam gritinhos histéricos, misturados em promiscuidade sonora com aplausos sem fim. Cansados à exaustão, só interromperam a ovação, quando ergueu a mão pedindo silêncio.

Veio o silêncio!

Balderico desceu um degrau e virou-se, estendendo a mão para dentro. Anéis e pulseiras reluzentes, extravagantes, coloridas apareceram trazendo um braço. Seguro pela mão, Xenik apareceu na porta e abraçados, desfilaram até o Armazém do Baldo. A multidão calou.

Para sempre!

Na segunda-feira, a portinhola ao lado do Armazém do Baldo, já estava encimada pela propaganda do trabalho que Xenik faria para o progresso da cidade.

“DOUTOR XENIK, ADIVINHAÇÕES EM GERAL”.



(24 de maio/2003)
CooJornal no 316


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br