07/06/2003
Número - 318

 

 


Airo Zamoner
  


A DESCOBERTA DE LAURO
 

Quando pela primeira vez deslizou pelo chão da sala, engatinhando como bebê grande, sorriu de tanta felicidade. Explorou os arredores, atabalhoado e desajeitado. Seus olhos, vez por outra, viam o infinito lá no fundo da parede e ele percebia que o mundo era muito grande. Haveria mundo no outro lado? Essa pergunta ocupava sua vida enquanto crescia.

Titubeava os primeiro passos, ereto e desequilibrado, quando viu a parede lá no fundo de seu infinito se abrir repentinamente. Viu luzes feéricas escorrerem pelo caminho e percebeu que lá fora havia outro infinito. Cambaleante, agitou os passos desvairados para atravessar as luzes e descobrir o tamanho verdadeiro do mundo.

E viu que o mundo era mesmo muito grande. Sentiu que um dia chegaria no horizonte longínquo para descobrir o tamanho verdadeiro. Antes de rolar escada abaixo, foi içado para o alto e devolvido ao mundo pequeno de suas paredes.

Sonhou com as luzes por milênios.

Um dia desceu as escadas, explorou os arredores com segurança e rapidez, como menino grande.

Seus olhos desejavam o infinito no horizonte e sentia nas cavernas de seus sonhos que o mundo era mesmo muito grande. Só acabava lá no fundo do horizonte. Haveria mundo no outro lado? Essa pergunta ocupava ainda mais a vida de Lauro enquanto amadurecia.

Homem ainda menino, caminhou em direção ao infinito e sorriu de felicidade. Andava e percebia que o mundo era maior que ele. Entristecido, viu o horizonte se afastar traiçoeiramente, boicotando sorrateiro o sonho protelado de chegar e desvendá-lo. Cansado, atirou-se ao chão embrutecido de pedras e seus olhos, inundados de luzes, encontraram as alturas. O infinito parecia branco. Quando as nuvens se abriram, viu novas luzes deslumbrantes deslizando ladeiras. Percebeu que lá em cima havia outro infinito, talvez o verdadeiro.

Engatinhando, havia chegado ao fim do mundo. E o fim do mundo era falso. Andando, rompeu seus enganos. E o infinito era falso. Voar o levaria às descobertas definitivas. E voar não sabia. Haveria mundo além do infinito? E essa pergunta o atormentava enquanto envelhecia.

Levantou-se das pedras, costas para o horizonte, caminhou como homem maduro. Avistou o plano do velho chão de sua casa. Agachou-se. Costas para a porta, engatinhou com firmeza como só um homem é capaz. Mergulhado nas jornadas, através de seus sonhos e descobertas, não fez mais perguntas e envelheceu.

Finalmente, como velho grande, Lauro imobilizou-se na cadeira de balanço, olhou para dentro de seus pensamentos e viu o infinito em sua mais ampla finitude. Sorriu de tanta felicidade.


(07 de junho/2003)
CooJornal no 318


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br