05/07/2003
Número - 322
|
Airo Zamoner
A SUPRESA DE MARIETA
|
 |
Marieta abanou despedidas sorridentes para o marido que já ia longe
mas virava-se inúmeras vezes, como só os exageradamente apaixonados
fazem. Ao mesmo tempo, não resistia olhar de soslaio a janela
entreaberta do vizinho. Via Suzinando agachado, piscando maroto,
jogando beijinhos maliciosos.
Imaginava a diversão que a tarde recém inaugurada preparava para
ambos, quando Alfredo desapareceu na esquina.
Antes que ela se mexesse, Suzinando apareceu no portão, abraçado com
Anita. Partiu em seguida e Anita jogou beijos infinitos enquanto
Suzinando, tal qual Alfredo, se voltava a cada dez passos, abanando
adeuses imensos. Não resistiu um olhar rápido para Marieta, fazendo
respeitosa reverência.
Anita se virou e sorriu para a generosa e encantadora vizinha. Depois
de rápida conversa entre as duas, Marieta correu para os fundos,
embrenhando-se através de pereiras e mimoseiras, farfalhando através
das capoeiras altas, até atingir os limites do quintal.
A brisa morna soprava os galhos que em resposta entoaram músicas
incompreensíveis, fazendo o pensamento de Marieta vagar alhures e seu
corpo sentir calafrios pela iminência dos prazeres proibidos que, pé
ante pé, se avizinhavam a cada minuto.
O ar morno e o vestidinho leve aguçavam apetites proibidos. Olhos
fechados e mãos percorrendo o corpo ansiavam pelos acontecimentos.
Espiava para fixar o muro baixo revestido de trepadeiras vistosas. Por
ali, dentro em breve, Suzinando chegaria às escondidas, enlouquecido
de amor como sempre, pulando o muro como um moleque, para atirar-se em
seus braços.
Remorsos avançavam por dentro das cavernas protegidas da antiga “filha
de Maria”. Imaginava os terrores do inferno, menores que a reação de
Anita se descobrisse um dia, o pecado mortal de Suzinando. Menores
ainda que as sensações de prazer imenso, indizível, incompreensível,
irresistível.
A brisa paralisou sua dança. As folhas se imobilizaram. Um silêncio
profundo, intrigante e absoluto abarrotou os ouvidos. Agradável e
hipnótico, induziu Marieta a singrar pelas fendas da imaginação
erótica.
Subitamente, rompe-se aquele silêncio extemporâneo. O barulho de
folhas e galhos amassados se agiganta, mas Suzinando não aparece. O
barulho não é por perto, é mais longe um pouco, do outro lado do muro.
Marieta se esgueira sorrateira como gata ladina. O barulho continua.
Há sussurros, há gemidos. Ela sobe em troncos mal cortados. Com
dificuldade, apóia suas delicadas mãos na quina superior do muro e
ergue o corpo. Sua cabeça alcança o topo e seus olhos se derramam
sobre o quintal de Anita. Ela vê os movimentos que causam o barulho.
Consegue erguer-se mais, jogando o braço para o outro lado e apoiando
o cotovelo, mas algum espinho ferino a surpreende. Grita incontinenti
e por entre as folhas surge, intempestiva e ofegante, a cara de
Alfredo, enquanto Anita, desvestida e pudica, corre desesperada para
dentro de casa.
(05 de julho/2003)
CooJornal no 322
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
|
|