19/07/2003
Número - 324
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Airo Zamoner
PRESIDENTE! O SONHO ACABOU...
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Ele esfregou os olhos como criança. Piscou várias vezes.
A penumbra da manhã impúbere digladiava contra a noite rebelde,
envelhecida, teimosa. Ela sabia de sua derrota cotidiana, desistiu e
se encolheu, aguardando escondida em conhecidos cantos inabitados.
Conformada, sabia da vitória certeira contra a iluminação do dia que
murcharia dentro de algumas horas.
Ele voltou a esfregar os olhos remelentos, sentir o sonho recém
apagado.
A agenda do dia disparou assessores pelas quinas do palácio. Desde os
primeiros dias de poder, não havia mais tempo para devaneios
infantilóides e o sonho se dissipava no emaranhado confuso das marchas
e contra-marchas, dos argumentos e contra-argumentos, das
possibilidades e impossibilidades, todas ignoradas no longo, muito
longo e mal feito vestibular da posse.
Perdido nas solenidades intermináveis, descarregava seus discursos
atabalhoados, mesclados de ansiedades e perplexidades, arrancando
muitos aplausos e isoladas ironias.
A manhã aflorou com veemência o cansaço da impotência inesperada.
Impelido por horários inexoráveis, levantou e engatinhou por espaços
majestosos.
O sonho de há pouco, dissipado pelas campainhas despóticas, e
estridentes a soar na consciência estarrecida, metamorfoseou-se no
sonho vendido em abundância nas praças e que, de uma hora para outra,
rareava perigosamente. A escassez do sonho poderia transformar
aplausos em apupos e isto ele não suportaria.
A fome incomodava as entranhas. Fechado no banheiro real, sentado para
desfazer-se da fome abundantemente saciada no dia anterior, apreciava
o vasto ambiente e sentia uma satisfação inusitada pela amplitude,
sofisticação e conforto.
Saciar a fome, porém, era imperativo para o primeiro passo do dia. Com
ela viva e barulhenta nada andaria, mas sua perturbação maior era com
a fome de sonhos e, lateralmente, com aquela mais distante que tanto
queria eliminar, espalhada que estava pelos cantões do reino.
Ainda sentado, angustiava-se com a demora de findar sua tarefa. O
pensamento vagava pelo calendário, imaginando quanto ainda faltava
para chegar um sábado, um domingo. Aí sim, poderia esquecer os tais
sonhos e mergulhar nas delícias da carne assada, nas brincadeiras
adultas mal compreendidas pelos sonhadores fabricados por ele, dia a
dia mais impacientes.
As divagações próprias da simplicidade de sua mente eram repetidamente
quebradas nos apelos lá de fora sobre horários e compromissos,
irritando-o sobremaneira.
A enxurrada de água tubulação abaixo, finalmente quebrou o silêncio.
Voltou para os aposentos, acompanhado por um séqüito bajulador e
sentiu-se profundamente rei. Elogios às mancheias o deixavam orgulhoso
de si mesmo em toda a plenitude de sua formação peculiar. Mas o que o
incomodava muito naquele momento de dar a largada para mais um dia,
mais viagens, mais discursos, mais aplausos, era o maldito sonho. O
prometido sonho que não chegava e o torturava, ameaçando sua
estabilidade e a estabilidade da nação inteira.
Sentou-se à mesa. Inspecionou a multidão de pratos, frutas, doces,
bolos, cremes, queijos, sucos e paralisou-se, fechando do cenho. Olhou
enfurecido para seus servidores. Esbravejou:
– Não é possível! O que houve? Vocês sabem que sem isso não consigo
tomar meu café.
– Desculpe-nos, presidente! O confeiteiro ficou doente e o sonho
acabou!
(19 de julho/2003)
CooJornal no 324
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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