09/08/2003
Número - 327

 


Airo Zamoner
  


A SECRETA PAIXÃO DE NOÊMIA

 

Noêmia aprendeu a fazer tudo muito devagar desde que nascera. Dimensionava seu tempo com lógica absoluta. Cada tarefa, por mais simples que fosse, recebia dedicação completa. Mesmo que essa tarefa fosse um passo, um pequeno passo de suas pequenas pernas ainda impúberes.

Muitos poderiam pensar que sua vida era excessivamente metódica, burocraticamente sem graça, emocionalmente sem brilho. Não era verdade! Em seu íntimo havia turbilhões de ansiedades, furacões de sonhos, tempestades de desejos, esperanças de viver paixões avassaladoras. Só não externava, nem mesmo por um segundo, aquele maravilhoso caos interior. Apenas seguia seu caminho, calma, calculista, firme.

Sua lentidão, enervante para muitos a seu redor, era na realidade eivada de sabedoria precoce e permitia o equilíbrio indispensável para viver com plenitude cada novo passo na direção do futuro desconhecido, intrigante, desejado.

Da meninice para a adolescência, aprendeu as agruras da liberdade: cuidar de si mesma; defender-se das investidas de estranhos; proteger-se das intempéries; alimentar-se. O custo da liberdade conquistada fazia Noêmia repensar sua infância curta, quando queria com teimosia a liberdade tentadora que acenava lá de longe.

Agora, dona de seu destino, curtia as lembranças, mas não abria mão das conquistas. Lentamente, cuidadosamente, avançava sem abandonar o sonho de se deparar com aquela paixão inebriante, estonteante de que tanto suas irmãs mais velhas falavam. E falavam com tal brilho nos olhos que essa busca se tornava obsessiva.

Em sua lenta e cuidadosa caminhada, parava intermitentemente, perscrutando o infinito e temia chegar a ele antes que pudesse viver os sonhos de fêmea que agora latejavam em seu corpo de mulher adulta.

E aconteceu. Repentinamente, aconteceu! Noêmia paralisou seus passos. Divisou no horizonte a figura que esvoaçava seus devaneios nas noites bem dormidas, mal dormidas. Os vultos obscuros das expressões do amor que viria um dia, agora se delineavam nítidos.

Era ele! Sim, só podia ser ele!

Tentou apressar-se, mas não podia; não conseguia ferir sua natureza. E seu instinto feminino dizia que precisava fingir certa indiferença, agir camuflando ansiedades.

De soslaio, observava a caminhada do estranho. Não! Não era tão estranho. Era certamente sua paixão que se avizinhava.

Percebeu que seus trajetos confluíam, seus olhares se cruzavam e revoluções desconhecidas agitavam seu interior.

Entre suas angústias, a mais lancinante era desvendar os mistérios sobre aquele ser desconhecido, prestes a se transformar em sua secreta paixão.

Ele avançava lentamente e Noêmia teve certeza que era em sua direção. Imaginou tornar-se também o sonho dele. Só podia ser isso! Senão, por que viria tentadoramente lento, mas resoluto em seu encontro?

Ela sentia petrificar-se. Já não andava, apenas esperava ofegante. Olhos fixos no amante desejado.

Finalmente tocaram-se. A paixão fulminante envolveu os dois amantes naquele encontro mudo que durou a eternidade. Não se largaram mais. Encontraram finalmente seus destinos sob os aplausos dos biólogos que deram naquele dia mais um passo importante na preservação das tartarugas.




(09  de agosto/2003)
CooJornal no 327


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br