28/08/2003
Número - 329
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Airo Zamoner
A suculenta índia apaixonada
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Foi um amor avassalador, mas isto é passado. Teve um tempo em que
ficavam os dois, amantes inveterados, enclausurados qual monges
rezadores. Todos observavam. Era gritante. Tinham olhos, ouvidos e
promiscuidade somente um para o outro.
O que aconteceu, ninguém hoje consegue explicar muito bem. O
resfriamento do ímpeto de suas paixões foi lento, mas irreversível. A
indiferença nasceu sorrateira e foi tomando conta dele. Ascendência
índia, ela tinha nome complicado, Oãçan, pronunciado com aquele som
anasalado, típico da língua tupi. Ele, com raízes perdidas em outro
continente, tinha nome pior ainda, On Revog. Descuidado e até
despreparado ele brincava dizendo que ela era a sua Maçã. Ela não
tinha dificuldade de pronúncia e quando muito séria, chamava o amado
por completo, mas preferia o apelido de Vog, Era comum ouvir-se:
– Oi, Vog, meu bem!
– Diga, minha suculenta Maçã...
Assim, On Revog e Oãçan iam trocando amores.
Ela se mantinha apaixonada, mas pressentia que o comportamento do
amado já não era o mesmo. Antes, cheio de cuidados, gentilezas,
beijos, abraços, agora mostrava pouco a pouco esmaecer a paixão.
Deixou de se preocupar com o bem estar de sua amada. Ela se percebia
abandonada. Chorava pelos cantos nos momentos de frustração profunda.
Esbravejava pelas ruas nos momentos de raiva espontânea.
Nas profundezas daquele amor do passado, descobriu-se traída.
Certamente advertiram-na por vezes, os mais chegados, dos perigos
advindos das diferenças abissais entre ambos. Ela, com uma vida de
confortos razoáveis. Ele, um pobretão desgarrado. Ela justificava sua
vida confortável pelo trabalho incansável, no dia-a-dia. Trabalho
duro, mas produtivo. Ele, ladino, espertalhão, nada sabia fazer, a não
ser projetar o olho ambicioso sobre as fontes produtivas da mulher
amada.
Quem vigiava de fora, percebia os falsos olhares do mancebo
acanalhado, rodeando-a dia e noite, fingindo grandes amores. Ela, já
madura, ansiava por um encantado qualquer e ele pareceu-se príncipe,
espalhando delicadezas, mesuras, flores, lindas palavras, poemas
enamorados, olhares profundamente apaixonados.
Entre o sonho que apaga a razão e a sedução irresistível do polhastro,
ela foi cedendo a seus encantos. Não sem motivos. Ele sabia enredá-la
com palavras românticas, ou de aparente inteligência, com palavras de
sabedoria barata ou de convencimento emotivo.
Seduziu-a, prometendo fidelidade eterna, ajoelhando-se no momento
certo para endeusá-la em público. Sim, ela cedeu a seus encantos, a
suas promessas e se entregou de corpo, alma e razão.
Foi assim que, sorrateiro, sórdido, moleque, alcoviteiro, ele se
apossou de sua alma e depois de sua fortuna. A pobre Oãçan, filha de
índios legítimos, mesclada em sua trajetória genealógica com outras
tantas ecléticas raças, ficou a mercê do insaciável malandro. Ele, que
a princípio se propusera a trabalhar por ela, ajudando-a em suas
empreitadas, hoje dita seus destinos, deixando-a empobrecida de alma,
de corpo, de sonhos.
Chora pelos cantos a pobre Oãçan. Ri pelas ruas o arrogante On Revog.
Contudo, escondidos em escaninhos perigosos de seu coração, Maçã, de
um momento para outro, deixará de ser a suculenta e inesgotável Oãçan,
para converter-se em Nação verdadeira, pondo pra correr o malandro On
Revog, substituindo-o por um Governo fiel.
(28 de agosto/2003)
CooJornal no 329
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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