11/09/2003
Número - 331
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Airo Zamoner
ALÔ! QUEM FALA?
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O sobressalto despeja adrenalina no sangue e o coração acelera. Ele
pula do casulo tênue do descanso forçado. As fibras do corpo extenuado
se retesam. A voz ameaça um salto da garganta trêmula. Pigarreia.
Disfarça. Ameaça relaxar. A excitação impede. Os ouvidos tentam
espasmos inúteis para estenosar entradas. O som digital rompe as
barreiras e vibra no cérebro suplantado.
Atender é voltar ao mundo. Ouvir pessoas e seus disfarces malditos é
abrir novamente os canais apodrecidos de líquidos imundos. É ter a
morte a seu lado. Se ela ao menos tivesse a comiseração de o levar
para sempre! Mas não! Fica ali para mostrar a supremacia pervertida.
Não atender é enlouquecer a cada segundo. Perder a consciência do
inferno.
O ruído metálico insiste. As mãos apertam as têmporas. Levantá-lo do
gancho é deixar fluir os demônios liquefeitos a escorrer pelas
orelhas, promiscuindo sua pureza.
Olha as janelas encortinadas de cobertores escuros, tapando o Sol
fingido. Pensa! Valeu a pena o trabalho para esconder esse traidor que
agora ilumina e alegra, mas depois desaparece e impõe a perfídia da
noite.
E ela se junta com outras tantas irmãs, planejando mortes. E os corpos
imploram alarmes estridentes como o som deste maldito aparelho.
Não quer mais o Sol, nem a primavera, nem as flores. Amostras
mentirosas da verdade escondida nos axiomas que ele flagrou
imperfeitos.
Não quer o dia fraudulento que só existe para trazer a noite. É nela
que o sangue jorra em cascatas mornas e desliza pelos esgotos
civilizados.
Relâmpagos fluem por sinapses assustadas, gerando idéias de fugas.
Para escapar terá que transpor a porta. Transpondo-a entrará novamente
no engodo que o dilacera.
Lá fora o transeunte admira o detalhe da abelha que esvoaça sobre as
margaridas. Olha o céu e lê as novidades desenhadas por nuvens
aleatórias.
Cumprimenta a vizinha que rebola na calçada, provocando desejos
adolescentes.
Vê o casarão antigo.
Estranha as janelas tapadas com mantas corrompidas. Plantas secas
choram nos parapeitos. Vidros quebrados trincam o passado. E o som
digital escorre fendas espaço afora.
O contraste segura os passos. O abandono apodrecido cá fora e o
tilintar digital lá dentro o intriga. Pára. Espera. Examina.
Procura a campainha da entrada. Acha o botão de cobre antigo. Aperta-o
e surpreende-se. Funciona!
Ninguém atende. Cola o ouvido em busca de sinais. O silêncio se
aglomera em torno do som metálico da chamada insistente.
Tenta abrir a porta. O rangido tétrico desarmoniza o ritmo do sinal.
Afasta-se com asco. O cheiro liberto foge pela fresta. Ele recua e
grita por socorro. A ambulância sem pressa recolhe o corpo. Escorrega
da maca a mão retesada que agarra o telefone, agora mudo.
(11 de setembro/2003)
CooJornal no 331
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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