18/09/2003
Número - 332


 


Airo Zamoner
  


O varal de dona Glena



 

Não levou muito a sério no início. Enxergava pouco e atribuiu o que vira a falhas da velhice. Mas aquilo voltou diante de seus estarrecidos olhos. Primeiro, foi a camiseta do neto. Em letras grandes, estava gravado o nome de um candidato a presidente que passara por lá, tempos atrás, e até fora eleito. Além do nome, tinha mais uma frase, falando aquelas bobagens que inventam para conseguir votos. Ela tirou a peça do balde, sacudiu para esticar bem, antes de fixar os grampos. Colocou exatamente naquele cantinho e então aconteceu...

As letras escorregaram lentamente pela camiseta. Incrédula, olhou para baixo e ainda pôde vê-las se desfazendo pelas ranhuras do chão respingado. Ficou por alguns instantes paralisada, procurando o pensamento atrapalhado.

Olhou para o varal e havia pelo menos mais duas camisetas. Uma com palavras sérias, talvez um pensamento filosófico, profundo. Outra com propaganda de um banco, dizendo que era o melhor de todos. As letras muito visíveis e bem impressas. Escolheu aquela com a frase importante. Retirou os grampos, ajeitou a peça, fixou-a. Afastou-se, esperando ver novamente as letras caírem, mas nem se mexeram.

Achou que estava mesmo ficando louca, ou velha demais. Pensou em voltar para dentro e retornar ao estafante trabalho de cada dia, deixando esses delírios de lado, mas não conseguia se conformar. Examinou a camiseta do neto, agora branca, sem nada escrito. Olhou para a outra, a do banco, um banco até bem famoso. Arrancou-a do varal, jogou nos ombros para livrar as mãos e retirar a outra peça. No mesmo lugar colocou a do banco e quando fixava o segundo grampo, as letras começaram a escorregar, sumindo pelas frestas do terreno batido.

Na hora do almoço, mesa cheia, tocou no assunto, constrangida. Varrendo os rostos, um a um, na busca de sinais de ter sido ouvida, garantiu que as letras de algumas camisetas caíram e foram engolidas pela terra. Insistiu:

– Com outra camiseta não vi nada!

Alguém, mastigando apressado, sussurrou alguma coisa sobre ilusão e os efeitos do sol.

Glena teimou. Disse que viu claramente letras escorregando inteiras sobre o tecido até caírem. Os netos trocaram olhares marotos, temperados com risinhos safados. Não quis fazer papel ridículo e se calou.

Dia após dia tudo voltava a se repetir e ela já não se importava. Quando pendurou uma camiseta de primeira lavada no maldito cantinho, a vizinha, enroscada na cerca, deu um berro espichado. Mais algumas palavras embaralhavam letras e escorregavam pelas dobras úmidas, desaparecendo terra adentro.

– Você viu? – quis confirmar Glena.

– Claro que vi, Dona Glena! Que foi isso? Será que estou louca?

Glena explicou toda a história. Disse que já estava até acostumada com aquilo, pensou que era velheira, coisas assim. A vizinha perguntou se também podia experimentar. Diante de olhos assombrados, ora as letras caíam, ora nem se mexiam.

A vizinha, num salto, volta para sua casa sem despedidas. No final da tarde, um pequeno grupo de pessoas batia à porta de Glena, carregando camisetas, moletons e outras roupas com frases estampadas. Queriam testar o varal de Glena.

Em pouco tempo a cidade toda fazia fila na porta. Um senhor grisalho ao invés de roupa, trouxe jornais, revistas, cartas, relatórios com entrevistas e declarações de gente importante. Pendurou folha por folha e muitas letras caiam, como acontecia nas roupas. As páginas ficavam com muitos espaços vazios. Desconhecido era o critério usado para escolher o que caia e o que ficava.

A discussão acabou quando aquele senhor grisalho colocou num papel uma afirmação mentirosa e outra verdadeira. Na mentirosa, escreveu que ele era mulher e na outra, que Glena era a dona da casa. Só ficou no papel a frase da Dona Glena. O resto foi tudo ao chão.

A cidade nunca mais foi a mesma depois do varal de Dona Glena.




(18 de setembro/2003)
CooJornal no 332


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br