02/10/2003
Número - 334
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Airo Zamoner
Meu encontro com Nhanga
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Quando cheguei por estas plagas, ele já estava aqui. Achei, desde o primeiro
dia, que era metido a besta! Pudera! Talvez por méritos próprios – tenho que
admitir – se destacava de tudo e de todos. Apesar dele, fixei morada, cansado,
lá de onde vim, da fumaça compulsória. Queimada sem descanso de fósseis
esgotáveis. Não suportei mais o escândalo sonoro e escancarado de todos os
dias a envenenar na minha janela fosca de resíduos aéreos, melentos, sujos.
Aqui, entre esquilos, lebres, margaridas, canarinhos, bem-te-vis, pica-paus,
corujas que batem em minha janela lucidamente transparente, me deparo, vez ou
outra, com este senhor imponente que insiste despudorado em se exibir a todo
instante.
Logo me informaram do apelido. Estranho apelido. Nhanga! Pronúncia incômoda,
mas vá lá. Tentei uma conversa dia destes. Inútil. Nem me respondeu, o danado
do Nhanga. Estava enfeitado com um véu branco como noiva. Até desconfiei da
masculinidade do dito cujo. Os mais velhos daqui me garantiram que não era
nada disso. Era só mais uma crise de excentricidade, própria dos famosos. E
fama não lhe falta!
Não tenho nada contra famosos. Tenho sim, é contra a soberba, a prepotência, a
hipocrisia. Era disto que eu pretendia falar. Queria dar um “chega-pra-lá”
nesse arrogante. Quem sabe eu poderia descobrir alguma coisa sobre seus
mistérios. E ele tem mistérios! Mas afinal, qual o famoso ou famosa que não os
tem? É por isto que as fofocas se propagam tanto por ouvidos e olhos afora. É
a volúpia em descobri-los. Talvez seja por isto que dele não se consegue tirar
muita coisa.
Manhã dessas – início de primavera – aconteceu o que eu tanto esperava.
Levantei cedo. Mais cedo que o usual. Gosto deste ar virgem, permeando meu
recanto nesses instantes adivinados, já que homens e mulheres dormem incautos,
realimentando esperanças de alcova. No entanto, era realmente muito cedo. A
penumbra ainda se divertia, zanzando como criança enquanto a noite meio
nervosa, já sumindo no horizonte, a chamava aos berros. Criança é assim mesmo
quando brinca! Não adianta gritar.
Espreguicei-me, pés descalço na grama fria, dei de cara com ele. Que
petulância! O que estaria fazendo ali o intrometido? Antes de mostrar
desagrado, aproveitei a ocasião para falar com aquele impertinente. Depois de
um cumprimento titubeante, ele me surpreende com resposta amável, segura,
quase simpática. Talvez o comportamento cortês tivesse a ver com aquele véu,
hoje ausente.
Confesso que não esperava tanta educação de alguém com fama de empáfia, de
imodéstia, de presunção. Respondi meio desconfiado e aproveitei a deixa,
dizendo que há muito esperava a oportunidade para falar com ele.
Ele sorriu um sorriso de bondade inusitada, de amabilidade fresca. A coisa se
amansou e o papo foi longe. A cada palavra, mais agradável e cheio de
cortesias se tornava.
Quando a gente fala com alguém por um longo tempo, consegue interpretar gestos
pequenos, olhares acanhados, sorrisos e tristezas embutidos no emaranhado de
expressões escuras. Percebi algum incômodo saracoteando em sua alma. Com
jeitinho, com sutileza, acabei tocando nesses incômodos. Aí ele se abriu!
Confessou-me tanta coisa! Falou-me de suas tristezas pela indiferença de
muitos, pelas ofensas que recebe, pelas agressões gratuitas que colocam em
risco sua saúde, sua vida.
Nunca imaginei que ele, o famoso Nhanga, pudesse estar sentindo essas coisas,
tão auto-suficiente ele aparentava ser. Quanta gente tem a cara de um jeito,
mas a alma é de outro! Mudei de idéia naquela manhã. É assim mesmo!
Entrei em casa que o aroma do café já se espalhava. Não sei porque, mas não
queria ser flagrado neste colóquio. Despedi-me com pressa, prometendo voltar e
conversar mais vezes.
Agora, todas as manhãs, dou bom dia ao Anhangava, o Nhanga, esse morro que
sofre silencioso, mas se expõe majestoso, exibindo-se para todos os cantos
desta Quatro Barras dos meus amores.
(02 de outubro/2003)
CooJornal no 334
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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