23/10/2003
Número - 337

 

 


Airo Zamoner
  


Eustáquio, o covarde

 

O danado não tirava os olhos de Marcela. Quando ela o encarou com aqueles olhos marotos a navegar entre ingenuidade infantil e tentação adulta, ele não suportou. Desviou-se em fuga vertiginosa, assustado, acovardado, jogando sua falsa indiferença para as densas nuvens a distrair uma coreografia caótica, mas harmoniosa. Seus olhos se incorporavam ao espetáculo, bailavam juntos num sincronismo absoluto, desensaiado, mas beirando extrema perfeição. A dança inquietava suas entranhas enquanto sentia o andar de Marcela, ali bem próximo, enfurecendo instintos gostosamente perversos.

Assim acontecia invariavelmente todos os dias. E quando acontecia, levantava-se bruscamente, saía da praça, passos largos, lentos, tentando fazer as formas ondulantes daquela menina, daquele projeto de mulher, estontear suas noites de vigília, esvoaçar em seus delírios.

Nos pensamentos de Eustáquio, apenas a fixação de voltar à praça quando a tarde caísse. Sentar-se no mesmo lugar para aguardar o novo desfile de Marcela; deliciar-se com os movimentos de seu corpo brincalhão e suplicar aos deuses por aqueles olhares espasmódicos dirigidos a ele, projetando a certeza da provocação sensual involuntária a se espalhar por todos os cantos.

Em seguida ele abortaria tudo, impelido por seus escrúpulos heróicos.

Queria tanto ser mais ousado, corajoso, impetuoso, inteligente, preparado. Mas sua natureza não permitia.

No limbo da travessia entre a criança e a mulher, Marcela achava graça daquele homem feio, encurvado, aposentado, boné de feltro ensebado a cobrir uma ignorância disfarçada, ora cabisbaixo, ora olhando nuvens, com máscaras mal programadas, querendo acompanhá-la em suas danças desengonçadas, mas sensuais; provocativas, mas ridículas.

Ele não sairia de sua presença, mesmo que implorasse, mesmo que morresse.

Deste jeito absurdo, dia após dia, mês após mês, ano após ano, acompanhou as primaveras de Marcela.

Eustáquio incorporou-se à paisagem de tal forma que sua presença já não era notada por ela, ou por alguém. Apenas era tolerada, sem discussão se bela ou feia, útil ou descartável, porque não mais afetava o mundo, ou sua vida, viciados que ficaram seus olhos e sua alma diante de uma existência seca, apagada, desnecessária.

Sabia disso o pobre Eustáquio e se conformava. Aceitava a destinação imposta por ter sido impingido a dedicar seus dias ininterruptamente, exclusivamente a Marcela.

Do parquinho e suas brincadeiras para o banco namorador, do corpo magro e infantil para a beleza da mulher bem feita, foi um pulo rápido do tempo eternamente traidor.

Enquanto Eustáquio encarquilhava cada vez mais o corpo em caducidade, dobrava joelhos, arrastava-se bengaleando pela praça, Marcela se transformava exuberante, trazendo agora seus próprios rebentos que se espalhavam em brincadeiras e já vislumbravam nele diversão garantida.

Os mais afoitos batiam em seu boné antiquado que voava longe. Derrubavam a bengala descascada e riam sem parar ao vê-lo tonto, passivo, tentando recompor sua postura honrada.

Nem esboçava a antiga vontade de ser mais ousado, corajoso, impetuoso, inteligente, preparado. Passara a gostar de sua covardia e respondia apenas com sorrisos ternos, complacentes aos netos malcriados.



(23 de outubro/2003)
CooJornal no 337


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br