13/11/2003
Número - 340


 


Airo Zamoner
  


O que você está fazendo aí?

 

Quando Eufrásio descobriu a verdadeira face de Sileno, ficou chocado! O amigo velho de tantas aventuras desde as primeiras brincadeiras nas quebradas da infância, não podia decepcioná-lo daquele jeito. Mas aconteceu e Eufrásio se desconsolou. E logo agora que Sileno assumiu cargos importantes, projetando-se na vida! O desgraçado poderia pôr em prática tudo aquilo que discutiam nas alvoradas de suas incursões pelos meandros da podridão do homem e ele se desnudava daquele jeito!

O pior foi a proposta! Onde já se viu esquecer daquela maneira tudo o que pensaram, descobriram, planejaram? Certo é que mudar o mundo não era mesmo possível. Mas abandonar o cerne das questões que motivaram os dois, tantas noites adentro, discutindo e garimpando caminhos limpos, era demais para o coração amargurado de Eufrásio.

Ele não se aventurou nos esgotos da política; ao contrário, conformou-se em realizar negócios honestos, limpos. Se não deslanchou na vida, não amealhou sequer um cantinho decente onde morar, não justificaria abandonar seus valores. Este fora o pacto, mas Sileno o traiu desavergonhadamente.

Aquela história do último telefonema, convidando-o a participar daqueles negócios estranhos, até que era coisa de amigo. Mas nunca imaginou que Sileno havia enriquecido assim, burlando todas as crenças que os dois construíram.

O presunçoso até se ofereceu para quitar suas dívidas! Dívidas dos infernos que o levou a perder a mulher. Estava cansada de sofrer com ele as agruras da privação. Arranjou um outro, mais esperto. Pelo menos foi o que disse no dia que estava arrumando a mala. Aos berros, bradava não se atrever a encher sua mala com chinelos carcomidos, calcinhas e sutiãs furados.

Mas Eufrásio sempre disse: melhor que ser rico é ter a consciência límpida e satisfeita por seguir seus princípios, seus valores. Quando ele falou a palavra “valores” ela caiu na gargalhada e perguntou onde estavam os valores que ela queria levar sua metade. Ele respondeu na hora que o melhor mesmo, era ela se mandar de uma vez. Onde já se viu, não saber identificar seus valores...

A perda de Evanina e tudo mais, até que Eufrásio ia suportando, mas o amigo querer que ele participasse daquelas negociatas que ele andava fazendo, isto era um exagero impertinente! E o pior: estava usando o dinheiro do governo! Onde já se viu? E ainda disse que dinheiro do governo não é de ninguém e se ele não aproveitar, um outro acaba aproveitando!

Claro que eu preciso pagar minhas dívidas. Já estão me chamando de caloteiro, mas não vou fazer isto às custas de minhas convicções. Já basta o Sileno trair nossos princípios.

Curiosidade mesmo, o Eufrásio tinha para saber quem era o espertalhão que levou sua Evanina. E ficava sentindo seus pensamentos o torturarem. Vai ver é um desses bandidos que andam enfeitados de pulseiras e correntes de ouro. Vai ver nem macho de verdade é. Não! Ela não teria essa coragem! Alguma coisa Evanina deve ter aprendido comigo. Uma certa razão ela tem, coitada! O tempo todo passando necessidade, mas podia agüentar mais um pouco. De repente eu conseguiria um emprego novo, ou algum negócio meu acabaria dando certo. Ela tinha pressa demais, dizia estar ficando velha e queria aproveitar as migalhas de vida que restavam. Talvez eu responda o telefonema do Sileno. Quero saber como é mesmo aquela proposta. Vou dar um malho feio nele! Pagar minhas dívidas é uma ousadia. Dívida eu pago é com o suor do rosto. Mas vou ligar, sim. Não que eu vá aceitar, ou talvez, quem sabe, só por uns tempos, até eu limpar meu nome na praça e poder recomeçar minha vida honesta de sempre.

– Alô! O Sileno está? Espere aí, essa voz... Evanina! O que você está fazendo aí?



(13 de novembro/2003)
CooJornal no 340


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br