30/01/2004
Número - 353

 


Airo Zamoner
  


A LUZ AZUL DE NOSSAS ORELHAS


 

No emaranhado de gente se acotovelando na tarde moribunda, Genésio conseguiu ver aquela absurda luz atrás da orelha do transeunte. Uma luz tênue, um pouco difusa, mas que chegava a se espalhar por alguns centímetros. Ao vê-lo de frente, percebeu um certo arroxeado na orelha que não chamava a atenção, mas por trás, era muito evidente. Pessoa comum, aquele senhor. Vestia-se de forma despojada, quase esportiva, contrastando com a idade que parecia um pouco avançada. Olhos brilhantes, leve sorriso. Certamente, divertia-se consigo mesmo, brincando travesso com seus pensamentos. Extraviou-se no povaréu e Genésio ficou com aquela sensação de ilusionismo de uma tarde em despedida.

Em época de tantos badulaques a enfeitar umbigos e outras regiões menos nobres, Genésio chegou a pensar que se tratava de nova moda. Um piercing eletrônico, quem sabe?

Por outro lado, a luminescência era por demais clara em sua mente para sossegá-lo através da noite.

Dia pesado, triste, demorado, atrapalhado, embutido nas agruras nacionais a esburacar seus planos, lá se foi o relógio capengando tarde adentro. Desceu do edifício Asa e se atravancou na “Boca Maldita”, em busca do azulado a se espalhar pela nuca daquele sujeito. Preparava-se mentalmente para barrar sua caminhada e o interpelar sobre aquela irracionalidade, assim que o visse. Vasculhou à toa pela multidão e encarou a garota, não tão garota. Linda, saracoteante, risonha, conversando com outras duas colegas. As três com um sorriso matreiro, escorregadio, a esconder ironias secretas. Pasmado, percebeu o tom arroxeado nas delicadas orelhinhas das três. Esfregou os olhos. Piscou várias vezes. Fechou-os por um segundo. Abriu-os e elas estavam mais perto. Agora era inegável. Esperou que passassem. Queria ver por trás. E lá estavam as luzes enfeitando o traseiro das orelhas. Agarrou desesperado o primeiro sujeito que alcançou e pediu para que olhasse para as garotas. Sacudiu pelos colarinhos o moço assustado, virando o rosto ora para as moças que se afastavam, ora para ele, num frenesi de angústia. Ele agarrou as mãos de Genésio, livrando-se do aperto. Esboçou um sorriso esquisito. Não reclamou, nem agrediu, apenas sorriu. Livrou-se e foi caminhando. Genésio, entontecido, pôde apenas ver a mesma luz azul atrás de sua orelha enquanto se afastava.

A cada novo dia, aquela mania, ou sabe-se lá o que era, se tornava mais comum. Genésio desistira de investigar. Nem para os amigos podia desabafar suas aflições. Muitos deles já mostravam aquele mesmo sorriso. Ouviu dizer que tinha algo a ver com descontrole do conhecimento.

Cabisbaixo, Genésio caminhou desarvorado para alhures, enquanto aos poucos sua orelha se azulava, se arroxeava e se iluminava. Olhando-se no espelho, compreendeu tudo e percebeu sua boca se ajeitando num sorriso zombeteiro.

A vizinha, igualmente de orelha azulada, tinha dito que o governo havia perdido o controle e não conseguia mais manter o povaréu ignorante.

Dormiu como um anjo. Sonhou como criança. Acordou sorrindo. Recusou-se a dirigir naquela manhã. Encarou a Estação-Tubo e trocou sorrisos com todos. Na Pedreira Paulo Leminski, a multidão já se apertava. Todos com suas orelhas iluminadas. O país não conseguiu ser mais o mesmo depois das luzes azuis. Nem o mundo!



(30 de janeiro/2004)
CooJornal no 353


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br