06/02/2004
Número - 354


 


Airo Zamoner
  


A vitrine de Paola


 

Firme em suas mãos, a pasta executiva escondia segredos. O cabelo, artificialmente comportado, disfarçava juventude e feminilidade enrustidas. A roupa talhada com esmero, séria demais para a idade aparente de Paola. O olhar duro e o caminhar decidido, ritmado, desviava os transeuntes entorpecidos. Indiferente, atropelou a criança distraída, sem trocar um olhar de cuidados.

Seguia resoluta seu caminho. Nada a distraía, ou desviava seu destino.

Batia o salto embrutecido no mármore a exuberar brilhos de luzes nos caminhos do consumo.

Exalava pelos poros, desinteresse absoluto. Nenhuma cor, luz, vitrine, flores, beleza despertava seu espírito. Nada interferia no rumo certeiro em direção, quem sabe, ao escritório, ao cliente, ao trabalho insano, importante, inadiável.

A cada espiada rápida no relógio, acelerava ainda mais o ritmo das passadas rudes.

Como evitar perguntas sem respostas?

Que segredos se acotovelavam naquela pasta?

Que pensamentos esvoaçavam por trás daqueles cabelos femininos, disfarçando sensualidade, ou criancice?

Certamente, pensamentos de chegar ao destino com brevidade. Necessidade de entregar-se aos papéis, aos problemas, ao trabalho involuntário.

E qual a razão daquele olhar disfarçadamente duro?

Camuflava para si mesma a ternura feminina, a criança entorpecida, tentando explodir a todo instante. Empacotava com frieza a adulta que, prematura, assumiu o mundo antes da hora.

Inesperadamente, ela pára. Congela-se por uns instantes, corpo estático, militarmente perfilado. Ereta. Os olhos secos. A pasta, balançando em sua mão apertada, suada, esgotava aos poucos a inércia da marcha.

Sem mover o pescoço, sem tirar o olhar de um infinito falso no horizonte finito do ambiente, ergueu o braço, retirou os óculos comportados. Virou-se. A passos suaves, doces, foi até à vitrine a sua direita. O olhar se enterneceu. Os dedos se afrouxaram. A pasta se foi para o chão com seus segredos.

As mãos delicadas, os dedos finos e longos esqueceram protocolos inúteis e se apoiaram no vidro cristalino. O rosto se colou à vitrine. Lá dentro, as cores, os sorrisos imensos, os olhares a seduzir a tarde, respondiam convites ocultos.

Balançava-se de um lado a outro. As mãos impunes manchavam o vidro com digitais mal comportadas. Paola, infantilizada, percorria as carinhas pintadas, os vestidos rendados, as perninhas de pano, as cores tentadoras e os sorrisinhos sedutores.

Quis subir no degrau para alcançar outras vistas. O sapato incômodo voou para longe. Os saltos se romperam. Descalça, agarrou-se onde pode. Seu corpo pressionou a vitrine. O vidro se rompeu e Paola mergulhou no mar de bonecas. Brincou a tarde inteira, a vida inteira.




(06 de fevereiro/2004)
CooJornal no 354


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br