13/02/2004
Número - 355



 


Airo Zamoner
  



O predestinado



 

Quando assumiu o mais importante cargo daquele pedaço de mundo, sentiu algo novo, diferente, agradavelmente morno, correndo em suas artérias e veias.

Passada a chatice incômoda de cerimônias protocolares obrigatórias, ordenou que o deixassem sozinho. E foi obedecido incontinenti. Aquela obediência causou-lhe prazer divino, intumescente.

Sozinho, sentou-se na imponente cadeira construída com a inteligência devida para ficar em um limbo, entre o absolutismo do trono e a democracia do povo. Ajeitou-se e percebeu tratar-se mesmo de um trono. E mais! Construído apenas para ele! Em sua mente simples, um frenesi de imagens se revezavam, deixando-o entontecido naquela solidão que antecedia o sonho dos grandes gozos que se avizinhavam.

Sentiu-se mais alto, apesar do alto espaldar a acariciar suas costas embrutecidas por árduas batalhas. Sorriu malicioso com sua nova estatura, já que a antiga fora motivo de tantos traumas infantis, mal superados no passado sofrido.

Aqueles foram instantes de profundas delícias pessoais. Seus olhos percorreram vagarosamente o entorno amplo. Uma sensação incontrolável de plena soberania assombrou seus pequenos pensamentos, sempre limitados por horizontes humildes, propositadamente congelados desde sua primeira surra.

Flagrado em fuga contumaz da escola, jurou abominá-la para sempre. Cumpriu a promessa. Extirpou de sua vida, livros, papéis e assemelhados.

Essas limitações, contudo, não o incomodaram nunca, mesmo porque não conseguia avaliar seus contornos. Muito menos agora, ao acariciar os braços daquele trono sedutor e ouvir claramente o zumbido real, vindo de seu sangue agitado, borbulhante, principesco.

Teve certeza naquela hora que, se cortasse sua pele, um líquido azulado escorreria lento, provando a verdade de sua régia predestinação.

Subitamente, invadido por pensamentos antigos, levanta-se e tudo pára. Pára o zumbido, param as percepções da falsa estatura. Abala-se a certeza do azul. Apalpa-se, convicto de que o vermelho é a única e triste realidade de seu sangue plebeu.

Apressado, senta-se novamente, grudando-se ao trono numa conjunção espúria e carnal. Tudo volta gostosamente a seu corpo. Chama os súditos que acolhem a ordem e invadem aos borbotões a sala soberana. São de cores as mais variadas. Eles sabem assumir a cor necessária, para o momento oportuno. Diante do poder, elogiam o grotesco. E o poder, ingênuo, desprovido das ferramentas adequadas, acredita em suas próprias virtudes. Crê piamente que seus defeitos serão motivos de adoração. Como um ídolo, terá suas vergonhas imitadas como feitos heróicos, únicos, impossíveis.

Reverências surgem acompanhadas de palavras doces de submissão e obediência. As reverências dos bajuladores junto com a impossibilidade de avaliação perfeita de suas próprias limitações empavonam seu raciocínio, deduzindo que de lá não deve sair jamais. E a assertiva tem a veemência da sinceridade própria dos pequenos universos.

É seu destino!

O azul é inexoravelmente a verdade eterna de seu divino sangue. E decreta:

– Que o vermelho jorre somente lá fora, na veia do povo!




(13 de fevereiro/2004)
CooJornal no 355


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br