27/02/2004
Número - 357

 


Airo Zamoner
  



O último dia de um soberano


 

Espreguiçou-se como um vagabundo. Sorriu como um corrupto. Fechou os olhos como um apaixonado. Sentiu-se como um deus. Esticou-se quanto pôde e gozou a energia abrupta percorrendo a pele. Largou os braços pesados ao sabor da gravidade comparsa, batendo-os descontrolados nas coxas revestidas do mais puro linho egípcio. Ergueu-os novamente, cruzou as mãos apoiando a nuca e admirou o entorno. Seu próprio e maravilhoso entorno!

Da sacada de seu quarto amplo, observou os serviçais se acotovelando. Respirou pausada e profundamente como um religioso oriental. Olhou o céu como um curioso navegador medieval e viu o azul esverdeado. Não o admirou por não entender a graça que dizem existir naquele azul esverdeado, ou arroxeado, ou amarelado.

Doze melodiosas badaladas e o Sol a pino escancarava o quanto dormira. Os esboços de nuvens o convenceram de seu poder, fonte de gozos infinitos da noite antiga, cheia de mulheres enlouquecidas abrindo-se para satisfazê-lo nos mais profundos e abjetos desejos. Lá dentro, envolta em lençóis esvoaçantes, sua mulher dormia o sono dos coniventes e sonhava com amantes imaginários, cansada que estava dos concretos, pagos a peso de ouro.

Voltou-se, apoiando o corpo no parapeito esculpido no mais autêntico e proibido pau-brasil.

Apalpou, depois alisou seu rosto e teve um sobressalto. Pensamentos confusos dispararam para todos os lados num transitar caótico e perigoso. Pouco afeito ao controle de seus próprios impulsos, acovardou-se diante do caos intelectual. Um surto incontrolável de paranóia se avizinhava. A cabeça parecia crescer e inchar. Ou estaria mesmo crescendo, inchando?

A convulsão iminente tirou-o do prazer cotidiano. Sentiu que algo precisava sair de dentro dele ou ele sucumbiria, explodiria em mil pedaços. Tão acostumado ao controle de todos, tão habituado ao mando e ao poder. Tão obedecido por todos ao menor sinal de vontade vulgar, agora, flagrara-se subjugado vergonhosamente, acovardado, diminuído.

Lá embaixo, os serviçais pareciam estátuas. Lá em cima, as nuvens congelaram suas formas e não mudavam de lugar. A tempestade barulhenta, incompreensível, assustadora, avançava em sua cabeça. O vento zumbia em seus ouvidos. As árvores, contudo, estavam inertes. O furacão desorganizava a memória, embaralhava as lembranças, trincava a ordem pequena.

Ah, mas no âmago daquela confusão inusitada em sua cabeça, surgiu uma idéia cristalina! Fazer um gesto lá para baixo. O gesto que seu poder transformava incontinenti em atendimento pronto, em satisfação plena. Imaginou que o gesto poderia não ser visto imediatamente. Associar o gesto ao grito seria a solução definitiva. Sim, teria que gritar. A situação exigia um grito. Quem sabe o grito seria tão forte, tão poderoso que faria silenciar o turbilhão elétrico a perturbá-lo naquela manhã comum. Mas, lá embaixo, as estátuas continuavam estátuas. Estátuas não perceberão o gesto. Não ouvirão o grito desesperado.

Da sacada, sentia logo ali atrás, entre as dobras da seda chinesa dos lençóis, as formas cansativas de sua mulher, movendo-se como se move uma cobra. Ela não se transformara em estátua. Ela ouviria seu grito e correria em seu socorro. Ela, a cobra, seria sua salvação.

Gritou como um bárbaro. Seu grito acordou as estátuas, paralisou a ventania, silenciou sua mente confusa. Seus gestos de socorro foram respondidos lá do quarto com uma gargalhada ferina, sonolenta. Lá debaixo, seus gritos foram devolvidos com apupos infernais de serviçais insubordinados.

Na sacada, ele se encolheu como um covarde. Chorou como criança. Fechou os olhos como um moribundo. Morreu como um diabo.




(27 de fevereiro/2004)
CooJornal no 357


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br