05/03/2004
Número - 358

 


Airo Zamoner
  



Não queria ter visto!


 

Não queria ter visto, mas vi. E depois não pude mais olhar as coisas como antes. E o que eu vi foi o semblante de Bianca. Em pé numa sacada de primeiro andar, apoiava-se no parapeito de ferro batido, elaborado com arte antiga, esquecida, abandonada, desdenhada, contrastando com os garranchos das pichações falidas, cuspidos da ociosidade mórbida de uma juventude perdida. No arremate, um acabamento de madeira nobre. Mas o ferro estava descascado de pinturas sobrepostas ao longo de muitos anos e mostrava a ferrugem ingrata a carcomer sua própria história. A madeira, pintada e repintada e cansada, deixara-se invadir pela decrepitude. Assim mesmo, Bianca se encaixava no cenário com exatidão euclidiana. Ela e cenário teriam nascido simultaneamente. Cotovelos revestidos de pele plissada, apoiavam-se ali, proibindo a inclinação perigosa do corpo sobre a vida estúpida, tentadora, corrompida lá de baixo.

Tudo isto era comum. O incomum era o semblante de Bianca. Cabelos brancos, disciplinados por grampos obedientes. Testa larga, guardando inteligência silenciosa. Maçãs do rosto, camuflando rubor adolescente, imperceptível, mas presente ao observador sagaz. Nariz esculpido com arte, elevado à perfeição, apesar do tempo carrasco. Lábios finos, esboçando um sorriso sutil, permanente, incontido. Arrematando tudo, os olhos de Bianca! Neles é que morava minha estupefação.

Quedei-me da pressa. Parei, congelado que fui pelo semblante de Bianca. Exalava tristeza, mas titubeava entre compaixão e revolta. Tinha súplica, aquele seu olhar indignado. Nossa conversa muda foi eivada de lamentos, saudades, piedade, medos, lágrimas.

Lá de cima, viu o acelerar de nossas perdas miseráveis. E como perdemos na ânsia de ganhar! Perdemos a inocência e descobrimos estarrecidos que o mal se enraizou nas almas. Ela viu desfilar as crianças puras de outrora em brincadeiras coloridas, descompromissadas, soltas, confiantes. Viu a solidariedade espontânea grassar todos os dias nos gestos simples de fraternidade. Viu olhares de sinceridade autêntica e isto era o óbvio, o corriqueiro. Viu abraços verdadeiros, enquanto os olhos dos abraçados se fechavam para sentir o calor da verdade. Beijos de amor autênticos, validados insofismavelmente pela exalação evidente dos vapores da alma. Viu serenatas apaixonadas, namorados jurando amor eterno e vivendo amores eternos. Viu líderes esbanjando idealismo, sinceridade, honestidade absoluta, sem nada camuflado na algibeira dos segredos.

Assombrada, viu, porém, o parapeito de sua sacada deteriorar inexoravelmente, a ferrugem avançando silenciosa. Assistiu, chocada, abraços interesseiros, falsos, juras de amor hipócritas, eivadas de interesse lascivo, passageiro. Viu a traição aporcalhada de líderes a petrificar almas sensíveis. A esmola sincera transformar-se no suborno desprezível. Os jovens idealistas de há pouco, vertidos em crápulas do logro e da ganância. As luzes esfuziantes das almas puras se transformando no fogo crepitante das falcatruas a céu aberto. Viu sua pele enrugar e cansar, enquanto os olhares dos moços, das moças se transmutaram do angelical para o malandro, ficaram mais ladinos, manhosos, ardilosos.

E então viu o pior. Foi aí que Bianca mudou o semblante e eu vi, e não queria ter visto. As crianças! Até as crianças mudaram o olhar que tinham do mundo. Perceberam que a luta pelo naco abjeto da coisa pela própria coisa teria que obedecer às regras da anti-virtude, da esperteza safada, do suborno, da vileza e da desvergonha. E isto, Bianca não queria ter visto. Nem eu.



(05 de março/2004)
CooJornal no 358


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br