12/03/2004
Número - 359


 


Airo Zamoner
  



O que aconteceu com Bonifácio?


 

Bonifácio sempre foi um sujeito otimista e feliz. Quem o conheceu, nunca deixou de admirar a expressão de seu rosto. Riso doce, fácil e permanente. Olhos espirrando confiança, paz, alegria suave. Não que sua vida fosse uma avalanche de sucessos. Ao contrário. Nascido na favela do Parolim, nunca soube de seu pai, nem sua mãe sabia dizer quem dos oito irmãos eram mesmo irmãos.

A tresloucada Gervásia recebia em seu barraco o primeiro disposto a dar-lhe um pouco de prazer nas noites frias. Era o Sol sair dos lençóis que o amante improvisado juntava os trapos e desaparecia. Meses depois, Gervásia tinha mais um filho ampliando suas agruras.

Bonifácio teve origem numa daquelas noites invernosas, com geada espalhada nos papelões travestidos de telhas, na paisagem descolorida daquele recanto da Curitiba de nossos sonhadelos.

Nasceu num camburão em plena madrugada, como tantos vizinhos. Ainda bem que o Fausto recebera um treinamento completo e partos foi seu interesse especial. Melhor ainda que naquela hora estava circulando por lá, atrás de uns traficantes conhecidos. Nem chegaram a terminar a grande subida da Brigadeiro Franco e Gervásia gemia e gritava cada vez mais. Encostaram a viatura e Bonifácio deu o primeiro berro ali mesmo.

Apesar de tudo, era a felicidade escancarada. Sorria à toa e não se enturmou com o grupo do fumo. Até experimentou uma vez e detestou. Tentaram aliciá-lo para ganhar uns trocos, fazendo entregas para ajudar a mãe. Mas, sabe-se lá porque mistérios, não quis saber daquilo. A turma tentou pressioná-lo, mas desistiram diante do peremptório “não”, mesclado com o desconcertante sorriso permanente de Bonifácio.

Tinha uns doze ou treze anos quando uma turma da Universidade Federal foi fazer pesquisas por lá. Eram acadêmicos de Ciências Sociais, fazendo um trabalho em conjunto com as futuras Assistentes Sociais. A Arlete bateu o olho nele e a conversa foi mais longa. Disse que tinha gostado muito do nome Bonifácio, que podia significar “bom semblante”, mas também “aquele que faz o bem” e ele era o Bonifácio encarnado.

Aquele dia foi decisivo na vida de Bonifácio. Graças à Arlete, passou a freqüentar outras paradas e para encurtar a história, foi parar no Colégio Rio Branco, lá no bairro do Seminário. Foi a salvação. Aquele rosto diferente, alegre, irradiando uma felicidade incompreensível, contrastante, foi abrindo caminhos. Fez concurso e ingressou no Banco do Brasil. Aposentou-se e voltou para favela. Percorre todos os dias aqueles caminhos da vila, ajudando o quanto pode.

Lá no centro ele costuma olhar a multidão que se movimenta, cada um com seu problema na cabeça, com suas angústias, mas ele vê todos com futuro brilhante, com alegrias imensas.

Até que dia desses, muito repentinamente, teve um choque. Estava lá na boca maldita. O burburinho e a agitação eram grandes. Gente para todo lado. E Bonifácio, pela primeira vez em sua vida, olhou melhor para as expressões de cada um deles. Caminhou assustado, agarrando as pessoas e virando-as para encará-las, examinando as expressões. Sua aparência impediu queixas maiores. Toleraram a audácia.

Andar vacilante, viu-se na Praça Zacarias e apoiou seu corpo cansado nas bordas do repuxo. Chafarizes fechados, a água parada refletiu sua imagem. Convenceu-se de que era apenas um velho meio enlouquecido, exposto sem piedade pelo espelho falso da água trêmula.

Dentro de Bonifácio, contudo, uma transformação visceral. Constatara que o povo estava triste, desesperançado, carrancudo. Abaixou a cabeça. Sua expressão perdeu o brilho de outras eras; seus lábios craquelaram o riso; seu corpo acentuou a curva. Andou a pé por horas imensas e trafegou pelas vielas da favela do Parolim. Um silêncio muito grande tomou conta de todos. A vila reverenciou pela primeira vez as lágrimas de Bonifácio.



(12 de março/2004)
CooJornal no 359


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br