26/03/2004
Número - 361

 

 


Airo Zamoner
  



Isofânia e o homem nu



 

Isofânia paralisou-se diante do gigantesco homem nu que exibia despudoradamente suas formas. Veio do interior para tentar a vida em Curitiba. Da Praça Tiradentes em direção ao Juvevê, caiu na Praça 19 de Dezembro e deparou-se com aquele monumento de masculinidade. Esqueceu temporariamente seu destino.

Não conseguia imaginar como podia estar ali aquela desfaçatez toda, sem que ninguém fizesse nada. Boquiaberta e disfarçando a vergonha, vigiava em torno. Se ninguém por perto, dava mais uma espiada nos exuberantes detalhes.

Agarrando sua bolsa amassada com as duas mãos grudadas no ventre, sentou-se no banco e ali ficou, esperando oportunidade para continuar sua admiração.

Ruborizou muitas vezes, do mesmo jeito que acontecia quando Negrão, o lenheiro, tentava beijá-la. Uma vez por semana ele passava pelo sítio. Ela gostava da carroça pintada de verde que ele tratava com tantos amores como se fosse sua amante. Mas gostava mesmo era de Isofânia. Aproveitava quando ficavam os dois a sós e ia se achegando. Ela ficava naquele não-quero-mas-quero-muito e disfarçava. Ele acabava se aborrecendo e na próxima viagem nem olhava para Isofânia. Ela percebia, rodeava a carroça, elogiava, jogava tentação.

Negrão chegou a agarrá-la certa vez, mas escapou cheia de risinhos e o deixou a ver navios. Ela se divertia com aquilo. Tinha certeza que um dia ele ficaria com ela para sempre. Mas o que Negrão queria, era ir logo para os finalmente. Cansou do joguinho e desistiu de Isofânia. Fora ele, ninguém mais se aproximou. Ninguém mais ousou. Ninguém mais a ruborizou. Agora, aquela “ferventura” voltava dos pés à cabeça de Isofânia, ao olhar para aquele monumento de homem. E ainda por cima, nu!

Solteirona, não descobriu os mistérios completos da vida. Enfiou-se no trabalho duro da roça. A mãe viúva, velha, doente e a pobreza aumentando trouxeram-na para estas bandas. A ansiedade de arranjar um bom emprego e o endereço apontado no bilhete do deputado, desapareceram diante daquele inesperado homem nu. Espreitava de soslaio, admirando cada contorno. Desviava o rosto rapidamente para olhar em volta e se ninguém percebesse, voltava-se para aquela maravilha que gerava um calor antigo.

Nem sabe quantas horas ficou ali, naquela veneração. Já estava caindo a tarde e descobriu-se a mais apaixonada das mulheres. O homem nu seria seu. Inteiramente seu!

Num repente, soltou um grito forte, levou as mãos à boca e sua bolsa quase foi ao chão. Só então percebera a mulher nua, sentada naquela pose descontraída, exibindo-se e fazendo companhia ao seu homem nu. Sentiu um ciúme danado, mas nem foi por isto que gritou. Gritou porque duas freiras, carregando pesadas sacolas, pararam para dar um descanso aos braços e se apoiaram sem-cerimônia nas pernas da moça sem-vergonha. E Isofânia viu com aqueles olhos que a terra há de comer que as freiras nem percebiam o que estavam fazendo! Aquilo foi demais para a tolerância de Isofânia. Levantou-se num supetão e correu histérica em direção às religiosas. Espantadas, elas pegaram a bagagem, sumindo lá pelas bandas do Passeio Público. Isofânia não sossegou. Gritava, tentava morder a mulher nua, dizendo que perder o seu Negrão uma vez já foi demais e que não ia dar “mole” pra uma safada qualquer.

A turma começou a se aglomerar. Isofânia nem percebeu. Berrou que se preciso fosse, também ficaria nua. Foi tirando toda a roupa e correu para junto de seu homem nu. Abraçou-se como pode. Grudou-se nele, sentindo aquele calorão fervente avançar por todos seus cantinhos. Nem percebeu o camburão chegando.




(26 de março/2004)
CooJornal no 361


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br