02/04/2004
Número - 362

 


Airo Zamoner
  



Pensamento guerrilheiro




 

Foi numa tarde brumosa... Que mania essa de começar um texto com previsão meteorológica! Mas, o que fazer se foi exatamente isto o que aconteceu? Era mesmo uma tarde brumosa quando me deparei comigo mesmo. Ou era alguém outro? Na verdade eu espreguiçava o cansaço e manobrava músculos entorpecidos depois de horas intermináveis de trabalho sano – o meu nunca foi insano – olhos fechados para auxiliar a desconcentração, quando o sujeito me apareceu escancarado à minha frente. Abri os olhos e ele não estava ali. É isto mesmo! Repito! Naquela tarde brumosa deparei-me comigo mesmo! Quem mais teria a petulância de invadir minha privacidade daquela forma?

Da cadeira de meu estúdio tenho o privilégio de olhar pela janela e ver a metade de baixo inteiramente coberta de verde, e a de cima, variando suas cores e formas do branco para o azul candente, do rosa para o vermelho de fornalha. É um divertimento que sossega minha mente agitada, inquieta, inconformada.

Olhos abertos, e aquele personagem desaparecia. Olhos fechados e lá estava ele, mão no queixo, indicador e médio tamborilando alternadamente o lábio inferior. Olhos ladinos, perscrutadores, sorriso malcriado. Parecia entender muito bem o que se passava nos labirintos de meu pensamento sereno.

Ele estava ali, lembrando-me dos dias em que meus sonhos eram gigantescos. Abraçava meu país, e não satisfeito, abraçava o universo. Debruçava-me sobre os pensadores de todos os matizes, percorria o pensamento dos filósofos prematuros ou maduros e desejava ardentemente um mundo melhor. Ele me observando, trocou a mão direita pela esquerda, voltou a dedilhar os lábios e a recordar de quando imaginei as armas para as mudanças. Nesta busca, a palavra era muito pouco, o discurso eloqüente, a retórica avassaladora não convencia os culpados, daí surgiu a contingência da revolta.

Um calor diabólico avançava pelos caminhos do corpo, infernizava a mente e exigia a guerra indispensável para mudar as mentes, domar a ruína. Que armas seriam imaginadas diante da força do inimigo e da inteligência do combatente, frente a derrota iminente e a constatação de que a mudança era impossível, e a conseqüência certeira era o desaparecimento do sonhador?

Mas porque estava eu a recordar aqueles anos de luta interna? Era simplesmente porque naquela tarde brumosa, apareci diante de mim mesmo daquela forma irreverente, didática, sarcástica. O ocaso é tempo de reflexão profunda, de varredura nas linhas dos caminhos andados, dos caminhos construídos à revelia do entorno, dos arco-íris e seus potes, dos atracadouros e do alto-mar de tempestades.

Um murro na mesa espanta aquela presença incômoda, faz voar papéis rabiscados, clipes deformados, grampeadores emperrados eternamente, assustando a casa e provocando dor intensa num pulso enfraquecido pelo tempo, mas despertando o combatente. Vejo que ele está vivo, rubro de sangue inconformado, ainda disposto a esgrimir, a duelar, a enfrentar novos combates, mesmo sabendo que foi vencido tantas vezes pela realidade absurda que abafa gritos, socorro, morte.

Olho na parede minha espada antiga, que não desembainho há tanto tempo e que virou decoração de gosto duvidoso. Vejo a coronha de madeira antiga do rifle enferrujado, doce herança paterna, iluminando significados imensos.

O inimigo é difuso, agora eu sei. Está disperso e camuflado dentro de todos nós. Olho aquelas armas na parede e tenho que pôr a mão no queixo, fazer o indicador e médio tamborilar alternadamente no lábio inferior. Sinto meus olhos ladinos, perscrutadores, e meu sorriso malcriado. E guardo para mim as delícias de meu pensamento guerrilheiro.



(02 de abril/2004)
CooJornal no 362


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br