09/04/2004
Número - 363


 


Airo Zamoner
  



Graças a Deus!

 

– Pai! Conte outra história de seu tempo...

– Não sei que graça você vê nisso...

– Ah, conte, pai! Vá!

– Vamos ver...

– Conte agora, pai. Conte!

– Você é um diabinho mesmo, hein? Tá bom! Vamos lá! Acho que foi nos idos de 2.050...

– O que aconteceu?

– Nosso país continuava indo de mal a pior. Como sempre, de um lado o povo e sua esperança burra, e do outro aquela turma que se revezava no poder...

– Lembro desses caras de outras histórias...

– Pois é! Esses mesmos. Eles fingiam estarem divididos entre bons e maus...

– Mas o que aconteceu em 2.050?

– Deus, meu filho! Deus!

– O que aconteceu com Deus?

– Até ele se cansou. Ficou nervoso. Nada que ele tentava dava certo por aqui. Levantou naquela manhã, disposto a tomar uma medida radical.

– Não vai me dizer que mandou outro Jesus...

– Que nada, meu filho! Muito pior...

– Pior que isso?

– Pior! Veio pessoalmente e botou pra quebrar. Chegou e já foi fundando um partido novo, o PD.

– PD, pai?

– É... Partido de Deus! Veja só! Claro que o povo aderiu e de um modo nunca visto. Os marqueteiros do PD tinham toda a verba que precisavam e em pouco tempo todo mundo virou “pedista”.

– E a nossa oposição daquele tempo, pai? Reagiu, né?

– Reagiu, mas o PD começou a fazer coligações com ela. No final só faltava comprar um único partido.

– Que partido?

– O PD do B.

– Ué! O do Brasil?

– Isso mesmo! O Partido dos Diabos do Brasil, sempre tão bem comandado por Belzebu.

– O Diabo em pessoa?

– O próprio.

– Mas, e daí?

– O PD do B se aliou ao PD, ora essa! Deus marcou uma reunião com Belzebu e acertaram tudo. Foi avassalador. Deus ganhou as eleições no primeiro turno.

– Então o povo ficou satisfeito?

– Claro que não!

– E por quê?

– Ora, com o Diabo e sua turma como aliados, Deus teve que mudar todos seus planos, mas o pior não foi isso, não...

– O que foi?

– Deus descobriu que o vírus do poder era mais forte que ele e se contaminou. Quando percebeu, subiu de volta aos céus. Nem terminou o mandato.

– E o que aconteceu com Belzebu?

– Ah, seu avô? Ele deixou tudo pronto pra que eu assumisse. Por isto estou no poder até hoje. Legal, né?

– Puxa, pai! Graças a Deus!



(09 de abril/2004)
CooJornal no 363


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br