16/04/2004
Número - 364


 


Airo Zamoner
  



O presidente me irritou!


 

Pode até parecer que estou usando de casuísmo, fisiologismo, nepotismo, ou sei lá mais de que outros defeitos posso ser acusado. Mesmo assim, não consigo assimilar o que o Presidente fez contra um amigo meu de longa data.

Está certo que o Presidente é um dos poucos, senão o único, que tem pouquíssima familiaridade, indiferença ou ciúmes, e até profunda ignorância quanto aos méritos deste meu amigo. Mas dizer o que ele disse, e eu ouvi com toda a clareza, justo contra alguém que só tem méritos? Isto me irritou profundamente!

Meu amigo é um sujeito de sorte. Foi assim desde seu nascimento. Cobiçado por quase todas as pessoas, sempre ocupa lugar de destaque. Sua fama cresceu e percorreu o mundo. Nem se compara com a do Presidente. As diferenças entre eles são óbvias, incontestáveis.

Armazenou profunda sabedoria ao longo de sua vida, ou quem sabe já tenha nascido com ela, por um destes milagres loucos deste universo mais louco ainda. Com tudo isto, o incrível é sua humildade. Em nenhum momento pleiteou cargos ou honrarias. Muito reservado, se mantém quieto e só fala quando estimulado e tendo pelo menos uma pessoa atenta. Se a pessoa se distrai, ele silencia conformado e espera. Nunca se mostra irrequieto, impaciente. Ao contrário, é generoso com adultos, velhos ou crianças. Acata o silêncio profundo dos sábios, as algazarras coloridas das crianças e o temor dos ignorantes. Tudo com a mesma paciência, a mesma consideração. Solícito, atende de pronto a qualquer chamado, sem preguiça, sem titubeios.

De forma democrática, expõe sua sabedoria sem empáfia, sem falso orgulho, com a calma dos grandes lagos, com o colorido das alvoradas, com a profundidade assustadora do universo. É realmente um sujeito peculiar. Um exemplo incontestável de cidadania, caráter, ética, respeito, bondade, paciência, desprendimento e saber.

Veste-se adequadamente como ninguém. É despojado e simples, mas pode apresentar-se de forma exuberantemente luxuosa, se preciso for.

Confesso que era muito jovem quando o conheci. Foi um dia inesquecível. Causou-me impressões indeléveis e jamais pude prescindir de sua companhia. Naquele dia, ele estava vestido de forma muito simples, quase pobre. Mas limpo, alegre, até serviçal.

O convívio com ele durante todos os anos de minha vida não me deixa imaginar como ela seria sem ele. Seria certamente impossível! Um vazio imenso, um deserto branco, um nada, talvez. Exagero? Não! Pura realidade!

Nosso relacionamento se mantém até hoje, apesar de minhas ansiedades, de minha impaciência, de minhas angústias. E ele não é assim só comigo, não! Encontra tempo para tudo, para todos. Parece ter a capacidade de se dividir em milhares e fazer tudo ao mesmo tempo. Está em toda parte e não discrimina ninguém. Não faz isto por algum mesquinho interesse secreto. Não! Faz porque é de sua natureza.

Vou me encontrar com ele na Bienal. Não há melhor momento para homenageá-lo mais uma vez. Ainda mais que hoje, participo profundamente de sua vida e modestamente trabalho com ele, para colocá-lo cada vez mais no lugar que merece.

Alguém com estas características todas, infelizmente, acaba sempre por causar certa inveja, certo desconforto, um desdém do orgulho de ser ignorante. Talvez seja isto que tenha ocorrido com o Presidente. Não fosse isto, como este Presidente poderia ter dito que meu amigo, o livro, não ensina ninguém a governar?



(16 de abril/2004)
CooJornal no 364


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br