30/04/2004
Número - 366


 


Airo Zamoner
  



PRECISAMOS DE UM GRANDE INIMIGO!


 

Ele vai aparecer de um jeito ou de outro. Pouca gente acredita, mas vai chegar. Afinal, alguém vai ter que unir nossas transgressões, nossos vícios abomináveis.

Será a fraternidade definitiva de nossa sociedade perdida. Certamente deixaremos de lado a hipocrisia total e iremos encarar que os governos são a materialização de nossa parte apodrecida, se é que existe alguma outra. Eles são a projeção de nossos gostosos pecados cotidianos. Para ele, escolhemos propositadamente os malandros, os aproveitadores, os enganadores, os preguiçosos, os patifes, os tratantes, os ignorantes, para culpá-los, execrá-los e nos livrarmos de todo o mal. Depois, descaradamente, renovamos fingidamente nossas esperanças e os trocamos por outros velhacos, desavergonhados, fraudadores, devassos, criminosos, corruptos, incompetentes. Aí, por mais algum tempo, nossas consciências se aplacam gostosamente. Deitamos na rede de nossos vícios e mostramos, dedo em riste, que eles são os culpados de nossas culpas.

Se a coisa apertar demais, sempre terá um pastor, um frade qualquer de plantão, disposto a ouvir a confissão despudorada de nossa perdição. Saímos de lá renovados, com a alma brilhando de pureza e o confessor, municiado de histórias que o deleitarão na concupiscência da solidão de seu breviário esfarrapado.

É por isto que ele está por surgir a qualquer louco e inusitado momento.

Surgirá certamente, porque estamos enjoados de pequenos inimigos. Inimigos fajutos que não entusiasmam ninguém mais.

Ao longo de nossa história, derrotamos déspotas, acabamos com ditaduras, guilhotinamos imperadores, vivemos guerras, morremos paz. Mas eles foram sempre inimigos idiotas que só queriam explorar nossa fé estúpida. Cansamos deles. Eles já estão nus e não assustam mais nem nossas crianças.

Outros inimigos como a heroína, a metralhadora, a reforma agrária, a metrópole, a ignorância, o colesterol, a hipocrisia, a fé, o agrotóxico, a democracia, as aberrações, os assaltos oficiais disfarçados de impostos patrióticos, a (des)educação malandra já fazem parte de nossa rotina, materializados em violência corriqueira.

Esses inimigos permeiam nosso cotidiano e nossas almas. Festejamos com eles todas as porcas horas de nossas vidas, empilhados em morros ou prédios, enterrados em minas ou escritórios, esmigalhados em ferro e plástico das rodovias, espetados nos soros da medicina mercenária, esbugalhando olhos nos canhões catódicos de nossos computadores olheiros, satisfazendo desejos virtuais no desfile de safadezas do horário nobre.

Sim, precisamos que ele venha logo nos salvar. E não pensem que estou falando de um redivivo cristo bonzinho, de um super-herói com poderes descomunais a subjugar nossas deformidades morais. Não! Estou esperando um grande inimigo. Um gigantesco inimigo, vindo das profundezas de nosso universo travesso, ou dos abismos de nossa imaginação abjeta. Só ele nos unirá definitivamente!



(30 de abril/2004)
CooJornal no 366


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br