07/05/2004
Número - 367


 


Airo Zamoner
  



TÁ EXPLICADO!

 

– Já ando cheio com isso! Eles levantam tarde, banqueteiam-se com o café completo, acompanham os gráficos das contas bancárias.

– E nós, os babacas, levantamos de madrugada, engolimos o café amargo e, pé no chão, mão no ferro, construímos o futuro deles.

– Eis aí, a sociedade dos homens! Tem o lado de lá. Tem o lado de cá. E pronto!

– Nós, do lado de cá, somos ignorantes e crentes, sacolejamos pela vida amarga, sonhando com o lado de lá até a morte e somos honestos, éticos e cumpridores de nossa palavra.

– É! E o lado de lá saboreia a doçura das ondas, enquanto cria esperanças virtuais para o lado de cá. São desonestos, malandros e não cumprem a palavra.

– Mas, que fazer? O lado de lá é o que pode tudo. Detém o poder econômico, social, armado, educacional e político, contra o lado de cá.

– E o lado de cá é submisso e, bestamente, mantém o poder econômico, social, armado, educacional e político, sempre em benefício do lado de lá.

– O de lá tem saúde, escola, honras, cargos sem encargos, salário sem cargo.

– O de cá tem doença, ignorância, vergonha, trabalho sem cargos, encargos sem salário.

– Você aí! É do lado de cá, ou do lodo de lá?

– Claro que sou do lado de cá, ora essa! O lado que precisa ocupar o de lá para mudar as coisas!

– Certo! É preciso desoprimir os oprimidos.

– É preciso tirar de quem tem e dar a quem não tem.

– Redistribuir é a ordem!

– E quem vai fazer o serviço se o lado de lá é o do vilão, do espertalhão do corrupto, do preguiçoso?

– Certamente a tarefa cabe ao lado de cá que é o do mocinho, do honesto, do trabalhador.

– Mas faz tanto tempo que temos colocado os nossos do lado de lá, e nada acontece... Por quê?

– Porque nós não queremos passar pra lá e continuar com a cara de quem é daqui. Ficamos sempre com a cara de quem é de lá...

– Mas o lado de lá, não é o lado do vilão, do espertalhão do corrupto, do preguiçoso, e o de cá o do mocinho, do honesto, do trabalhador?

– Nada disso! O lado de lá é do vilão e do mocinho, do espertalhão e do honesto, do preguiçoso e do trabalhador. Já o lado de cá, ao contrário, é do mocinho e do vilão, do honesto e do espertalhão, do trabalhador e do preguiçoso.

– Tá explicado!



(07 de maio/2004)
CooJornal no 367


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br