21/05/2004
Número - 369

 


Airo Zamoner
  



A história de Joana

 

Baixinha, ligeiramente gorda, rosto redondo, expressão serena, desempenhava seu trabalho humilde como quem cuida dos destinos do mundo.

Entre vassouras, panos, detergentes, aspiradores e assemelhados, caminhava desenvolta pelos corredores, salas e gabinetes. Um dia aqui, outro acolá.

Viúva? Não sabia dizer. Talvez, respondia! E já ia explicando que desde os dezesseis anos tratou apenas de criar seu único filho. A paixão de menina terminou em gravidez e a gravidez em abandono covarde.

Veio a Curitiba em busca da única amiga e a promessa de um parto na maternidade. Promessa cumprida. Era assim sua história. Curta, objetiva, sem rodeios.

Seus sofrimentos, suas angústias de mãe, ela resolvia no segredo de seu quarto, com suas crenças, seus deuses, suas velas.

Não freqüentava igreja alguma. Tentar até tentou. Foi a várias delas. Uma colega de trabalho insistiu tanto, que num domingo brumarento ela cedeu. Missa comum, pessoas, comuns, capela pequena e pobre. Santos cobertos de roxo da quaresma triste. Sermão conhecido, repetitivo, cansativo como sempre.

A colega fez questão de apresentá-la ao padre. Joana tentou ser educada, quase fingida, mas no dia seguinte disse para amiga que não gostou dos olhos do padre. Não voltaria mais lá.

Quando veio aquela onda de novas religiões a se espalharem pela cidade, acabou por aceitar mais um convite. Apresentada ao pastor, recusou a mão, causando constrangimento e até a revolta nos fiéis em torno. Seus olhos faiscaram. O pastor ficou desonrado com a reação. Joana não conseguiu ser educada, nem fingida. Afastou-se depressa, deixando pendurada no ar a mão solta, o olhar embasbacado e uma expressão envergonhada na cara do religioso.

Não foram as únicas experiências. Perdeu a conta de tantas outras. Era no tempo em que sentia um vazio imenso a perseguir suas noites. Depois teve a idéia de arranjar aquele pequeno e rústico altar em seu quarto. Sem regras, sem ritos pré-determinados, sem doutrina, sem mandamentos ou santinhos. Só um refúgio de seus medos. E eram tantos! Tudo girava em torno dos destinos de seu irrequieto e ambicioso filho. Assim, só assim, acalmava o coração e a alma aflita.

Coisa pior acabou acontecendo, quando apresentaram a ela o futuro vereador do bairro. Bem apessoado, era um homem sorridente, gentil, cavalheiro. Já fazia fama por lá. Era só o que faltava, pensou ela. De padre para pastor e agora, político!

Reuniram num barracão quase cinqüenta pessoas. Todas ávidas para conhecer aquele que ia mudar as vidas de todos naquele canto esquecido da periferia. Era um moço bonito, o tal Felício. Falou mais bonito ainda. Parecia um redentor bondoso e compreensivo. Exalava aparência de poder. Ela ficou lá na última fileira, ouvindo. No final, arrastaram-na para frente. No bolo de gente querendo apertar a mão do palestrante, ela se destacou. Ele fez questão de que abrissem caminho. Foi um escândalo. Ela perguntou a ele, com voz firme, cristalina, em tom alto que ecoou por todo o recinto, porque ele era tão dissimulado, tão falso, tão mentiroso. Um abismo de silêncio incômodo entrou avassalador. Foi um instante de constrangimento absoluto, puro. Mas ele era ardiloso, tinha suas armas e quebrou rapidamente aquela cena patética. Mostrando desenvoltura, ou hipocrisia, chamou-a pelo nome. Disse compreender suas dúvidas e enveredou por uma conversa melosa. Joana virou as costas e foi embora. Deixou-o com um sorriso amarelo e estilhaços de palavras no ar. A amiga correu atrás. Joana simplesmente disse que não queria mais conversa.

Voltou para seu recanto escondido. Misturou-se com as velas, as fitas, as orações livres. Rezou como só mães são capazes. Pediu para que os deuses iluminassem de vez o coração do seu amado Felício, apesar das estripulias que faz por aí como padre, pastor, e político.


(21 de maio/2004)
CooJornal no 369


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br