28/05/2004
Número - 370


 


Airo Zamoner
  



A TENTAÇÃO DE LAVAR AS MÃOS

 

– Você precisa caminhar todos os dias, ao menos uns quarenta minutos! – sentenciou o médico, num tom pilatiano indesmentível. Finda a consulta, como Pilatos, lavava suas mãos, enquanto advertia. – Caso contrário...

– Vou me esforçar, doutor. Prometo! – Augusto cortou a conversa para não ouvir a lista formatada de desgraças a ameaçar seu futuro..

Caminhou duro até o alto da cidade. Postou-se no parapeito de um mirante improvisado. Apoiou o corpo cansado. Cansado, não só da caminhada forçada, mas de tantas outras caminhadas. Dali, tinha um ângulo anônimo da cidade. Não sabia se isso era bom, ou não! Nunca aprovou nada anônimo... Olhou o relógio. Lá se foram os quarenta minutos recomendados. Podia parar e olhar para baixo, onde o burburinho continuava em liberdade.

– Linda a cidade daqui, não? – o desconhecido encostava-se ao parapeito e admirava a vista.

– Parece bem melhor do que lá de baixo, não?

– É verdade! Faz tempo que prefiro olhar somente daqui.

– Você tem razão! Olhar tudo de longe disfarça os defeitos...

– Que defeitos você consegue identificar daqui?

– Não sinto poluição no ar; não vejo os buracos nas calçadas e ruas; não escuto os barulhos tirânicos, não vejo miséria alguma...

– Não se percebe o que as pessoas estão fazendo...

Augusto o encarou e quase se viu no espelho. Ele, impassível, não reagiu! Augusto voltou-se para a vista da cidade, intrigado com a semelhança física.

– Você é incrivelmente parecido comigo! Estou surpreso! Não seremos parentes?

– Pode ser...

– Acha bom não ver o que as pessoas estão fazendo?

– Acho! Já me preocupei muito com isso...

– Não se preocupa mais?

– Prefiro olhar de longe e admirar os resultados...

– Gosta dos resultados que vê? – provocou Augusto.

– Se você considerar a média desses resultados, eles agradam...

– Mas tem as mentiras, o egoísmo, os assaltos, a miséria fabricada, os corruptos, os assassinos, a exclusão social...

– Tem os idealistas, as mães, os bebês, os sábios, os artistas... – insistiu o desconhecido.

– Os doentes, os cancerosos, os aidéticos, os loucos, o aquecimento do planeta... E a falta de ética...

– Mas temos os éticos!

– E os traidores?

– Existem os verdadeiros!

– E quanto aos falsos?

– Há os abnegados.. – o desconhecido não desistia.

– Os estelionatários...

– E os caridosos?

– E os impostores?

– Você está estragando minha vista da cidade... – Augusto sentiu ameaça velada em seu tom de voz.

– Estou apenas mostrando que lá embaixo a coisa está podre e não podemos ignorar...

– Já vivi tanto quanto você e sabemos o que está acontecendo...

– Como sabe que viveu tanto quanto eu? Ei! Onde está você?

Era grande e largo o espaço em volta de Augusto e o desconhecido simplesmente desaparecera. Ou nunca existira?

Intrigado, Augusto foi descendo para a cidade, devagarinho. Olhou as mãos sujas do parapeito sujo. Mãos sujas o incomodavam. Sentiu uma tentação imensa de lavar as mãos para sempre!


(28 de maio/2004)
CooJornal no 370


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br