04/06/2004
Número - 371


 


Airo Zamoner
  



Vai faltar luz hoje à noite!


 

Osvaldo colocou sua pasta no colo, ficou escarafunchando lá dentro à procura de algo provavelmente importante e desabafou:

– Aquele pirralho deve ter mexido aqui novamente...

Fechou a pasta, desconsolado. Só então percebeu alguém a seu lado.

– Desculpe o desabafo!

– Não se preocupe. O pirralho deve ser seu filho... Filhos sempre mexem nas coisas do pai. Eles são curiosos... Faz parte do aprendizado.

– É... mas ando desconfiado... Não sei o que se passa naquela cabeça...

– É filho único?

– Não! Tenho uma menina também...

– Um casal! Que maravilhosa família...

– Quando pequenos, tudo era realmente maravilhoso. Agora, minha mulher e eu sentimos uma dificuldade muito grande com eles...

– É normal! Eles crescem, passam a ter idéias próprias. Lembro que para mim foi um choque quando minha filha mais velha, e depois a do meio, e por último meu filho despejaram em minha cara uma opinião que vinha lá de dentro deles. Até aquele dia, sempre foram perguntas e eu sempre dando as respostas ou estimulando que elas aparecessem. Mas naquele dia, foi um susto. É assim mesmo! O problema é que não nos preparamos para essa apoteose das idéias próprias... Olhe bem para a carinha deles quando aparecem com uma idéia que não foi você quem deu! É fantástico!

Encarou demoradamente o dono daquele discurso. Olhos vazando, como se ele fosse transparente..

– Você fala como se conversasse sempre com seus filhos...

Zé Maria devolveu o olhar perfurante.

– É a melhor e mais barata ferramenta de educação. Conversa. Muita conversa!

– Sabe o que acontece? Trabalho o dia inteiro. Quando chego em casa, minha mulher já deu o jantar pra eles. Assim, posso comer mais sossegado. A experiência de estar à mesa com eles, sempre foi cansativa. Muita discussão e briguinhas. Querem ficar contando as bobagens que aconteceram na escola, em casa, na festinha. Tá louco! Isso é muito chato pra quem está exausto do trabalho. Assim ficou bem melhor. Enquanto jantamos, eles já estão ocupados na televisão. Depois, nos juntamos a eles. Acabamos assistindo alguma coisa, ou então indo pra os quartos. Meu filho se mete no som, ou no computador. Minha filha começa dormir no sofá. No dia seguinte tudo se repete. Não existe hora nenhuma pra conversa... E também não sei se conversa resolve... O mundo de hoje está de pernas pro ar...

– Desligue a chave geral de luz assim que chegar em casa... – disparou Zé Maria.

– Como? Não entendi!

– Avise sua mulher e peça para jantar com as crianças, hoje. Quando você chegar, passe pelo quadro de luz e desligue a chave geral, mas entre preparado. Cuidado para não tropeçar em alguma coisa...

– Você está doido?

– Claro que não! Faça essa experiência... Não vai se arrepender! É meio drástica, reconheço, mas você precisa de algo drástico enquanto é tempo. Chegando, peça para os pirralhos trazerem as velas.

– As reclamações vão ser insuportáveis....

– Será o começo das conversas... No escuro, muita coisa vai clarear...

Osvaldo ficou absorto. Olhou a pasta que, entreaberta, sorria para ele. Couro de vaca-louca, pensou Zé Maria. Remexeu-a mecanicamente. Largou os braços. Encarou o dono da sugestão estapafúrdia. Sorriu o mesmo sorriso da pasta. Levantou-se lento. A pasta, desleixadamente pendurada, e ele fechando o riso. Afastou-se, arrastado. Não se despediu. Parecia em transe. Zé Maria o acompanhava até bem longe quando, repentinamente, voltou-se para trás, girando a pasta em círculos pelo ar. Abriu um sorriso imenso, quase uma gargalhada, e seu grito a plenos pulmões paralisou por um segundo, o vai-e-vem das pessoas.

– Vai faltar luz em casa hoje à noite! Obrigado, Zé!



(04 de junho/2004)
CooJornal no 371


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br