18/06/2004
Número - 373
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Airo Zamoner
Ainda fervem sonhos...
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Aconteceu por uma obrigação de ofício. Fui à Bienal em São Paulo. E
cometi a insanidade suprema: fui de carro. Depois de horas perdidas
naqueles insuportáveis labirintos fumarentos, concluo que aquela
cidade não consegue se organizar de forma decente. Os anos passam e se
os problemas antigos encontraram solução, os novos são tantos que nem
notamos progresso algum.
Enfim, chego à catedral provisória do livro. Um mundo à parte dentro
de nosso cotidiano. Se não temos uma idéia concreta a respeito do
público que lê neste país de drogas, na Bienal ele aparece e mostra a
cara sorridente, feliz por estar mergulhado naquela gigantesca piscina
de letras. Milhares de pessoas ávidas por este incrível objeto do
desejo de muitos, esquecido por outros, desprezado por alguns que até
ocupam cargos na república.
Quando falo “país de drogas”, estou me referindo às próprias, e também
a tantas outras que vemos espalhadas por todos os recantos em que há
algum indício de poder. Mas voltemos à Bienal, antes que descambemos
para o sórdido. Centenas de estandes, despejando livros de todos os
matizes, todas as luzes, com apelos irresistíveis, cores fascinantes.
É coisa para deslumbrar seus amantes incorrigíveis. Vemos editoras
gigantescas, com sua imponência peculiar e marqueteira, tentando impor
as atenções. Mas vemos também as pequenas, e as pequeninas. Foram elas
que me chamaram a atenção! Pequenas editoras e pequenos editores,
exalando grandes sonhos, grandes projetos e, principalmente, expondo
grandes livros.
Visitar os pequenos, conversar com eles e sentir em seus olhos os
jatos de alegria e confiança no futuro: isto é inacreditável neste
país de miséria, analfabetismo, desigualdades e inovada desesperança.
Lutar com parcos recursos contra grandes conglomerados e péssimas
políticas é coisa exclusiva para sonhadores. Este país foi feito por
eles. Sonhadores esbarram nos exploradores malditos. Aqueles que estão
apenas de olho nas oportunidades de ganho, seja de riqueza, seja de
poder, ou de ambos – a qualquer preço moral. Aqueles que se preocupam
com os problemas de nossa população apenas quando e porque as eleições
se avizinham. E dizem isto de forma tão descarada porque já perderam a
vergonha e o rumo ético.
É por isto que adoro estes sonhadores maravilhosos e odeio
exploradores mercenários. Entretanto, o livro não é simplesmente uma
mercadoria, mas eles não sabem disso. O livro foi inventado por um
sonhador. É alimentado por sonhadores. É um relicário! Um silencioso
denunciador. É um arauto. Um revolucionário. Um guerrilheiro
solitário. Devia estar nas mãos de todos, ser para todos, mas não é!
Vi milhares felizes com seus livros à mão. Mas nós somos milhões e não
apenas milhares. O pior é que a limitação não é de custos como alguns,
que adoram muletas, gostam de acusar. Livros são mais baratos que
CD’s, mas se consome muito menos livros. Deles, vemos com freqüência
os prêmios abundantes sobre as vendas que ultrapassam um milhão de
cópias. Os livros vêm sofrendo um achatamento gradativo em suas
edições. Há vinte anos, uma pequena edição era de cinco mil
exemplares. Hoje, uma edição de quinhentos já é uma vitória.
E daí? – diriam alguns. Daí é que temos no livro apenas uma
conseqüência de nossa natureza marota. Quando a autoridade máxima diz
que o livro não ensina a governar e depois se atira sobre a Bienal
para discursos oportunos, exalta-o como o bem maior para todos, então
encontramos explicações para nossos infortúnios.
Mas porque diminuem sistematicamente as tiragem? Porque a população
aumenta, mas os leitores, não!
Voltei, alternando alegrias e tristezas. Voltei, sabendo que a rotina
me espera. Vou continuar produzindo livros porque não consigo deixar
de ser guerrilheiro, revolucionário, inconformado e apesar dos cabelos
brancos, ainda fervem sonhos aqui dentro.
(18 de junho/2004)
CooJornal no 373
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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