02/07/2004
Número - 375
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Airo Zamoner
As lágrimas de
Dominique
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Como havia crescido daquela maneira, ela não sabia explicar. O fato
concreto era que Dominique podia ver tudo muito do alto. E ver coisas,
pessoas e fatos do alto, era uma brincadeira que a fascinava.
Ficava entristecida quando o encanto, ou seja lá o que fosse,
terminava. Voltava a seu tamanho normal e tudo parecia mais
desconfortável, incômodo, perigoso, inseguro. Mas sabia que no dia
seguinte, a qualquer imprevisível momento, ficaria gigantesca e
voltaria a ver tudo lá de cima. Não sabia explicar porque as pessoas
não percebiam aquela menina gigante, caminhando pelo país como se
andasse sobre um pequeno mapa. Ninguém ligava para ela. Era como se
não existisse. Isto até que era bom, do contrário causaria um tumulto
tão grande que teria que se refugiar. E onde poderia se esconder com
aquele tamanho todo?
O dia em que a cabeça ficava nas nuvens era ruim. Não conseguia ver
direito o que se passava lá embaixo. Tinha que se agachar, olhar,
levantar, dar mais um passo, agachar e assim por diante. Desviar os
aviões nestes dias nublados não era fácil. Mas já desenvolvera
habilidades inusitadas.
O bom era quando o sol se espalhava e as nuvens iam ali ao lado, no
alto mar. Mas a brincadeira de agachar, ver de perto, levantar, ver de
longe era muito divertida.
Ria muito, quando percebia os minúsculos bonequinhos animados,
esbravejando uns contra os outros. Abaixando-se, a importância da
discussão era enorme e o destino das pessoas se decidia ali, naquele
bate boca insuportável. Mas era se levantar e aqueles pontinhos se
tornavam tão insignificantes que ela não segurava boas gargalhadas.
Conseguia ir do sul ao norte do país, com vinte ou trinta boas
passadas.
Nestas andanças, descobriu um brinquedo muito estimulante: pôr o olho
nas janelas das casas, dos prédios e ver o que acontecia. Nossa! Via
cada coisa! Mas aos poucos percebeu que era tudo muito parecido e
perdeu a graça.
Andava triste, a Dominique. Em seus passeios e suas espiadas pelas
janelas, descobriu coisas que preferiria nunca ter sabido. Nos
primeiros dias, desejou mudar o rumo de tudo que estava errado. Tentou
interferir com sopros, gritos, já que nem o dedo mindinho conseguia
enfiar pelas janelas. Se pudesse! Ah, se ela pudesse pegaria estes
bonequinhos bobos e mostraria como deveriam se comportar!
O que mais irritava Dominique, era ouvir as conversas entre as pessoas
importantes e até as sem importância e depois ver o que diziam e
faziam. Sentia uma raiva muito grande!
Era domingo, quando a tristeza tinha aumentado tanto que começou a
chorar. Foi ao parque. Lá havia espaço para sentar e chorar a vontade.
E chorou, a Dominique. Chorou mais desesperada ainda, quando quis
evitar um acidente com um ônibus cheio de crianças e percebeu que suas
mãos atravessavam as coisas como se fossem invisíveis. Era como se ela
não existisse de verdade. Chorou porque só podia assistir e não podia
mudar nada. Suas lágrimas foram escorrendo pelo corpo e eram tantas
que pingavam no chão. As gotas eram gigantescas, faziam estrondos
quando caíam e foram se acumulando umas às outras. O parque já estava
encharcado a sua volta. Dominique chorou tanto, que tudo ficou coberto
de lágrimas. Tudo mesmo! As lágrimas cobriram as cidades inteiras. Nem
as pontinhas dos prédios apareciam mais. Dominique, desesperada,
chorava mais ainda e não conseguia salvar ninguém.
Depois, aos poucos, as lágrimas de Dominique foram secando, mas o mar
cobria tudo. O silêncio era assustador. Não se ouvia mais sirenes, nem
gritos, nem choros, nem sussurros. Apenas um leve marulhar e Dominique
adormeceu, só acordando no dia seguinte ouvindo um grito familiar:
– Dominique! Levante, minha filha! Chega de dormir! É hora de ir pra
escola!
(02 de julho/2004)
CooJornal no 375
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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