16/07/2004
Número - 377
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Airo Zamoner
Dê um beijo em Ariela
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Ariela ficou me olhando lá de longe por uns momentos e depois,
devagarinho, disfarçando a timidez educada, foi se aproximando.
Olhinhos apertados, fazendo esforço para não amarrotar o papel que
trazia nas mãos trêmulas, foi cumprindo a missão de me contar a
tristeza que transbordava em todos os gestos.
Saber da morte de Nicanor causou-me um abalo que não pude imaginar em
tempo algum. Um calafrio incômodo viajou descontrolado pelas veias,
silenciando minha vida por momentos parcos, enquanto Ariela foi se
aconchegando a meu lado. Assim, repartimos nossas dores por um tempo
indefinido, necessário, breve, mas eterno.
Uma sensação de tarefas não cumpridas e a pressa intempestiva em
realizá-las de uma vez por todas invadiu-me sem cerimônia. Isso
acontece toda vez que a morte, sem convite, faz seus sarcásticos
passeios por perto.
Trocamos silêncios demorados, entendendo nossa tristeza mútua.
Cabisbaixa, ela revirava nas mãos aquela folha de papel, aguardando
nossas almas se ajustarem, impelidas pela vida que não parava de
saracotear em volta. Rajadas eletrizavam nossos pensamentos,
impingindo a verdade suprema de que nada vai mudar depois da partida
definitiva.
Nada, ou quase nada!
A ligação de Ariela com Nicanor não era das corriqueiras, às vezes
superficiais, entre avô e neta. O rostinho de menina, mostrando sulcos
recentes de lágrimas teimosas, mal disfarçadas, estava ali em minha
frente, aumentando meu próprio sofrimento.
Corpo despejado no banco. Costas encurvadas pelo peso da cabeça
superlotada com dores prematuras. Seus olhos estavam jogados para
baixo, embaçados na tentativa de afastar as amarguras, olhando para
coisa nenhuma. Mãos agitadas reviravam o bilhete. A ausência óbvia de
respostas matava aos poucos a juventude exuberante de Ariela.
Olhando-a, sentia-se a importância da vida de Nicanor. Ele nunca saiu
nos jornais, nas revistas, na televisão. Não foi glorificado nos
palcos ou nas arenas. Não discursou no Congresso, nem deu autógrafos.
Mas deixou Ariela. E nela, toda sua alma. E assim se tornou imortal.
Olhando Ariela, entendi a importância de Nicanor para a humanidade, em
contraponto com a banalidade equivocada de tantas obras suntuosas.
Meus olhos caíram desanimados ao chão, trombaram impotentes em tantos
nomes momentosos. Presidentes disso e daquilo, no embuste fabricado.
Associam-se eles, uns aos outros. Fortalecem mútuas hipocrisias.
Cercam-se em redomas despóticas. Discriminam a falsa importância,
salientando a inutilidade do resto. Impelidos a explicarem suas
riquezas espúrias, deixam pela vida um rasto de dúvidas.
Do alto de seus pedestais de barro mole, se autoglorificam. De dentro
de suas ampolas artificiais, ridicularizam acusações pertinentes,
certos da impunidade que avilta consciências nobres.
Ninguém há de chorar a morte de vidas inúteis, gastas em solapar
direitos alheios, desperdiçados no vazio de patrimônios morais.
Os falsos poderosos um dia partirão, mas quem sofrerá por eles?
Nicanor não! Nicanor se foi, mas deixou Ariela que chora por ele.
Depois de longos minutos ela me passa o bilhete de Nicanor.
“Dê um beijo em Ariela por mim ao menos uma vez por semana. Nicanor”.
(16 de julho/2004)
CooJornal no 377
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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