06/08/2004
Ano 8 -
Número 380
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Airo Zamoner
Lupiano, amigos e pedras
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Lupiano caminhou pelos labirintos arquitetados por ele próprio ao
longo da vida, como quem passeia sem rumo, sem projeto, sem destino,
curtindo o prazer de olhar a paisagem. Examinou suas minúcias. Tinha
tempo de sobra e aquela desconhecida saudade enrustida nas prateleiras
escuras do inconsciente, empanava sua alegria lá de fora.
Precisava desta caminhada pelos barrancos e mistérios de seu interior
profundo, sem compromisso, sem gastar o inexplicável precioso tempo.
Começou a sentir resquícios de alegria. Sensação esquecida nas
cavernas prestes a visitar. Apenas uma coisa o incomodava. A penumbra!
Queria um caminho iluminado, brilhante. Mas lá dentro, a penumbra o
desconfortava.
Olhou o relógio. Tiquetaqueava com ponteiros imóveis. Estranhamente
imóveis. Tempo parado às quinze horas. Saboreava a caminhada sem adiar
compromissos. Sem eles, seus músculos e nervos relaxaram ao extremo e
o tornaram leve, sem peso. Aquela antiga dor no joelho direito e a
outra, no pé esquerdo, que lá fora impediam longas caminhadas, não
reapareceram e ele andava, andava, andava...
Chegou finalmente a uma larga praça vazia. Só uma entrada. Só uma
saída. Atravessou apressado. Pedras escuras bloqueavam a passagem.
Ainda quinze horas... em ponto. Agarrando-se como pôde, escalou o
monte. Seu peso aumentava. Seus pés deslizavam. A subida era sofrida.
Ofegante, chegou ao topo. Seu corpo não cabia na estreita fresta que o
conduziria para outras paragens. A luz que passava aguçou sua vontade
de mergulhar para o outro lado. Lá não havia penumbra. Só luz. Tanta
luz havia lá!
Um calafrio repentino, detalhado, caminhou pelos muros da praça e
Lupiano se encolheu, sentou-se, suspirou. Ninguém por perto. Se um
amigo pudesse ajudá-lo a remover o obstáculo, certamente avançaria.
Mataria sua curiosidade. Investigaria as cores de seu próprio
interior. Olhou em volta. Ninguém!
Pensou num artifício qualquer para desfazer aquela montanha e abrir
passagem. Subiu e desceu tantas vezes sem sucesso, sem idéias, sem
esperança. Quinze horas. O tempo não passava.
Aborrecido, triste, quedou-se no meio da praça, olhando as pedras de
longe. Pedras de todos os tamanhos, empilhadas, maldosamente
satisfeitas em bloquear seu caminho.
Uma repentina estocada elétrica em algum lugar de seu corpo o levou
próximo à saída. Apalpou cada pedra, uma a uma, sentindo seus
contornos, suas arestas agudas, suas maldades expostas. Viu o que não
vira até aquele momento. Percebeu. Reconheceu. Estarrecido, lembrou da
primeira pedra. Sim, agora lembrava! Ele mesmo a colocara ali. Era
criança ainda. Não pôde dormir naquela noite. A pedra o incomodou
tanto! Durou semanas o peso, pesando em algum lugar desconhecido,
agora conhecido. Cansado, considerou naquele dia que era a única. E
uma só não tolheria seu caminho. Deixou-a ali, quieta, certo de que
ninguém a veria jamais. Seria fácil desviá-la um dia, se precisasse.
Caminhou vagarosamente em volta do monte e, apalpando as pedras, foi
reconhecendo seus momentos.
Muitas delas lembravam seus amigos. Tantos amigos. Amigas. Se
todos eles estivessem agora ali com ele naquela praça! Certamente,
cada um pegaria uma pedra e tudo se abriria. Mas, não estavam! Agora,
quinze horas em ponto, tudo ficou claro. Com a primeira pedra, se foi
o primeiro amigo. Com a segunda, o segundo. E agora, aquela
montanha...
Restou voltar e passear pelas trilhas penumbrentas de sua alma. Como
abominava a penumbra! O corpo voltou a ter o incômodo peso. Exausto,
sentou-se por uma eternidade. Olhou o relógio mais um milhão de vezes:
quinze horas!
(06 de agosto/2004)
CooJornal no 380
Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br
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