13/08/2004
Ano 8 - Número 381

 


Airo Zamoner
  



O armazém do Baldo
 
 

Naquele tempo a cidade era um pequeno povoado. A vida escoava pachorrenta pelas frestas estreitas dos dias e das noites cansadas. A monotonia era a atração da moda.

Uma notícia!

Qualquer notícia, por mais sem graça que fosse, espalhava-se pelas casas, pelos botecos, pela rua. Se não viesse da estação, vinha da rodoviária. Raramente pelo telefone lá do posto da companhia, ou pelo outro, no Armazém do Baldo. Não importava se verdadeira ou falsa. O que realmente importava? Uma notícia. E ela veio.

A carta!

Todos conheciam Balderico, filho de Baldo, dono do armazém. Causava inveja, o Balderico. O mais estudado e sabido. Balderico viajou pelo estrangeiro e conheceu Xenik. Baldo estufava o peito.

Um Deus!!

Agora, no armazém, não se falava em outra coisa, a não ser em Xenik. Se Baldo era um sábio, Xenik era Deus. Se Balderico era o mais estudado, Xenik era doutor. E estava chegando...

As moças!!

As moças do lugar se agitaram como nunca. Antes, não se cansavam de assediar Balderico em todo lugar. Ele sempre resistia, indiferente. A cada viagem de Balderico, as moças tremiam. Medo de que, junto com ele, viesse alguma grã-fina, pondo tudo a perder. Não veio. Vinha Xenik.

Um alívio!

Baldo andava para cima e para baixo, carta na mão. Verdadeiro troféu. Na carta, as incríveis qualificações de Xenik. Todos olhavam com imensa admiração e previam um futuro maravilhoso para a cidade. Finalmente um professor autêntico. Um médico, um cientista, um doutor. A sabedoria, a competência, a formação dessa figura tão esperada, com seus diplomas engatilhados para grandes façanhas, iriam transformar suas vidas.

A missa!

O domingo estava ensolarado. A missa. A sagrada missa dominical foi adiada. O padre, misturado com a multidão, tinha olhos ansiosos. A estação cheia. O trem chegou aos poucos, bufando pelas ventas metálicas. Xenik estava lá dentro com Balderico. Os vagões deslizaram pela plataforma, formando alucinantes imagens estroboscópicas com suas janelas intermitentes. Finalmente, o guincho do aço nos trilhos se misturou com os gritos e aplausos do povoado inteiro.

O trem parou!

Em dias comuns não se via o trem naquela estação perdida. Quando parava, ninguém descia, ninguém subia. Abastecia de água a caldeira e prosseguia, raivoso.

Naquele domingo, chegou solene. Aos poucos se fez um silêncio aterrador e absoluto. Olhares fixos na porta do vagão.

Apareceu Balderico.

Irromperam gritinhos histéricos, misturados em promiscuidade sonora com aplausos sem fim. Cansados à exaustão, só interromperam a ovação quando Balderico ergueu a mão, pedindo silêncio.

Veio o silêncio!

Balderico desceu um degrau e virou-se para o interior do vagão. Estendeu a mão para dentro, num gesto de cavalheiro. Anéis e pulseiras reluzentes, extravagantes, coloridas surgiram, trazendo um braço. Seguro pela mão, Xenik apareceu na porta e abraçados, Balderico e Xenik desfilaram até o Armazém do Baldo. A multidão calou.

Para sempre!

Na segunda-feira, a portinhola junto ao Armazém do Baldo, já estava encimada pela propaganda do trabalho que Xenik faria para o progresso da cidade.

“DOUTOR XENIK, ADIVINHAÇÕES EM GERAL”.



(13 de agosto/2004)
CooJornal no 381


Airo Zamoner
escritor, colunista do jornal O ESTADO DO PARANÁ
airo@protexto.com.br